Quando a gente fala em viver o suficiente, não é porque queremos ter pouco, nem porque achamos bonito o sacrifício. É porque aprendemos que o excesso adoece. Quem tem demais não descansa, não convive, não escuta. Fica sempre correndo atrás do que ainda falta, mesmo com a casa cheia de coisas. O suficiente, para nós, é ter uma casa que nos abrigue, uma roça que nos alimente, e parentes para partilhar um território que nunca é só nosso.
Uma casa pequena é uma ótima tecnologia, não é atraso. Casa pequena não deixa acumular tranqueira, não vira depósito de roupa velha e eletrodoméstico. Casa pequena obriga a gente ficar perto, escutar a fala um do outro, partilhar o fogo e também sair mais ao ar livre, para os pátios, para as roças, para as matas. Não é porque não sabemos construir grande, é porque escolhemos o tamanho que cabe na vida boa.
A opy, a casa de reza guarani, feita de paredes de pau-a-pique e telhado de palha, possui uma tecnologia de conforto térmico e ventilação muito sofisticada. Sentimos uma tremenda diferença quando entramos em uma casa de reza feita com telhas de fibrocimento e uma com palha de sapé ou de taquara. É uma grande sabedoria indígena construir coberturas que nos protegem da chuva, até do granizo, mas possibilitam que a fumaça saia e o ar circule: um telhado que é, ao mesmo tempo, impermeável à água que vem de cima e permeável à fumaça que vem de baixo. Não encontramos nenhum modelo de telhas industrializadas que tenham uma tecnologia assim e ainda sejam tão leves e prontas para voltar à terra.
As roças também são tecnologias avançadas, um laboratório em que atuamos em parceria e respeito com diversos outros seres. Não fazemos ali experiências para descobrir como controlar tudo para produzir mais do mesmo — essa agricultura do excesso conhecida por monocultura. Ao contrário, tecemos relações de compartilhamento do espaço e do tempo entre diferentes: as raízes da adubação verde trazem alimento para os seres que habitam o solo; as sombras das plantas que crescem mais rápido protegem aquelas que vêm devagar; e a cobertura de folhas secas dos milhos que já cumpriram seu ciclo ajuda a guardar água da chuva para os dias mais secos. Quando chega o tempo da colheita, nos damos conta de toda a abundância e variedade do que plantamos. Mas essa abundância não é excesso, porque não se guarda apenas para nós: se reparte, se troca, se oferece para novas experiências de plantio e compartilhamento.
Muita gente nem imagina, mas não existe apenas um milho guarani: são muitos, de cores e formatos diferentes, cada um com seu sabor e com um nome que guarda uma história. Cada espiga abriga uma diversidade genética tecida entre tantas experiências anteriores em aldeias de parentes próximos, mas também distantes. Aprendemos que essa força da diversidade da roça é a mesma força da diversidade em nossa aldeia. Entre nossas famílias, temos diferentes misturas e jeitos de ser, o que nos ajuda a dividir as tarefas e buscar distintos espaços para viver bem, para que os conflitos — que sempre acontecem — não sejam excessivos, mas apenas suficientes para cada rama de parentes encontrar seu tempo e seu modo de se espalhar pelo território.
De vez em quando, vêm pessoas de fora para filmar nossas roças. Em uma dessas ocasiões, queriam filmar apenas uma liderança diante do plantio, como se fosse a única pessoa que ali plantou. Dissemos que não, que a imagem só fazia sentido se mostrasse todos, porque a roça ali não era de uma só pessoa, mas da comunidade. Não adianta querer transformar alguém em celebridade, porque aí se perde o que é mais importante: a experiência e a força da colaboração entre diferentes. Escapar do narcisismo também significa não se deixar capturar para virar vitrine para consumo. E nós não queremos viver como vitrines das redes sociais. Queremos viver como raízes na terra.
A vida boa é compartilhada entre diferentes. Não existe aldeia para nós sem o mitãjaryi (bem-te-vi) nos acordando com novidades, sem cachorro avisando com seus latidos incômodos, sem macaco-prego vindo filar uma fruta e nos fazer rir. Esses animais não são intrusos, são outros que convivem conosco e com os quais buscamos construir uma vida melhor. Até a anta tem seu lugar. Cada pessoa só pode caçar uma anta na vida, e mesmo assim precisa pedir licença ao ija (espírito-dono) que cuida das antas. Essa regra mostra que a vida não é só para o humano. A anta também precisa viver, também precisa se reproduzir, também precisa continuar correndo e abrindo trilhas pela mata. E quando uma cai como caça na armadilha do nhu’ã, é obrigatório repartir com todos em festa.
Para nós, mborayvu é um movimento de sustentar a vida por meio do compartilhamento, é uma tecnologia do suficiente. Quando dizemos que praticamos o mborayvu, estamos afirmando que não aceitamos viver para juntar bens, nem para virar donos das coisas. É algo que se manifesta no nosso modo de viver junto: quando assamos o milho e chamamos os parentes para comer; quando uma família colhe batata-doce e reparte com as outras; quando abrimos espaço para que visitantes se sentem ao redor do fogo e recebam alimento antes de todos; quando uma família acolhe a criança de outra; quando os mais velhos contam histórias para todos, sem escolher apenas seus parentes; quando sustentamos as consagrações e curas na opy sem medir o esforço de quem reza ou canta a noite inteira. Temos que tentar ser como uma grande árvore na mata, que faz com que toda a abundância que gera vá além de si mesma: sua sombra, seus frutos, as folhas que caem, a seiva que escorre pelas raízes — tudo é partilhado com a diversidade de seres que a ajudam a crescer, se reproduzir e seguir oferecendo uma abundância suficiente para muitos.
O mborayvu também se expressa politicamente. É um antídoto ao modo de vida do capitalismo, que por sua vez ensina cada um a pensar só em si mesmo e acumular para competir com os outros. Já uma aldeia em retomada só se sustenta porque o mborayvu cria alianças, aproxima parentelas, traz diversidade para o território, mostrando que autonomia não se constrói com cada um isolado, mas com a partilha que gera o coletivo.
Temos também que saber recusar o que vem de fora e nos atrapalha, como projetos que produzem dependências e subordinações ou doações que só acumulam lixo. Aquilo que chamam de doação muitas vezes não passa de descarte do que não serve mais para circular como mercadoria no mundo jurua (não indígena). Às vezes chegam às aldeias perto de São Paulo muitas doações da cidade: roupas usadas, brinquedos de plástico, doces industrializados. Se aceitarmos tudo sem pensar, a aldeia se enche de lixo, as crianças deixam de comer o açúcar das frutas, os jovens passam a desejar aquilo que não faz bem. Então, a gente precisa aprender a recusar. Recusar é também um gesto de autonomia. Não precisamos de tudo que nos oferecem. Essa recusa é uma forma de escapar do que o mundo não indígena quer para nós, quer para os nossos desejos: torná-los insaciáveis, nos fazer querer sempre mais, mesmo que isso custe a vida da maioria dos demais seres do planeta.
Nesse sentido, a autonomia, para nós, sempre implica um limite de reconhecer que nosso modo de ser não é superior aos dos demais, e com isso não podemos simplesmente impor nossas regras aos outros seres que compartilham o território conosco. Assim, quando falamos em autonomia — inclusive em relação ao Estado — não estamos reivindicando soberania, essa palavra tão repetida nos últimos tempos e pela qual os não indígenas parecem disputar quem é seu verdadeiro dono ou quem a defende melhor. Para nós, esse termo expressa justamente a raiz da desmedida: a ideia de que alguém, uma pessoa ou um povo, se coloca acima de tudo que existe em um território, e que, por ser soberano, não aceita que seu desejo ou suas regras sejam limitados por nada além de si mesmo. Aqueles que usam essa tecnologia política, em vez de se libertar, podem acabar se transformando na própria razão insaciável desse inimigo, tornando-se um outro Estado, um outro que se crê acima de tudo.
Se palavras e conceitos também são tecnologias políticas, é importante perceber que implicam modos específicos de viver. O “suficiente”, por exemplo, não significa pouca coisa, ou escassez. Ele funda outro regime de valor. Quando dizemos “basta”, estamos afirmando que não vamos trabalhar até morrer apenas para pagar contas e desejos desmedidos — cuja maioria sequer é nossa. Contudo, não se trata de buscar nenhuma forma de pureza, nem de isolamento. Simplesmente não deixamos essa lógica do mundo jurua mandar na nossa vida. Não vamos correr atrás de carro novo todo ano. Não vamos nos endividar para comprar o melhor celular com a internet mais rápida só para virar noites em telas sentindo falta do que não temos. Não vamos reduzir a terra e nossos milhos a dinheiro apenas para poder comprar essas coisas. E isso tudo assusta quem está preso no circuito do capitalismo, porque revela não só outras formas de viver, mas também outras formas de morrer — de aceitar a morte não como fim absoluto, mas como limite.O capitalismo tenta convencer os jurua a viverem como se não fossem morrer nunca. Correm atrás de mercadorias e dinheiro como se pudessem levar junto. Na aldeia, aceitamos que vamos morrer. Por isso, também, não acumulamos. A morte é nossa mestra da suficiência. Ela nos lembra que nada é para sempre, que tudo tem medida, que a vida não precisa de muito para ser plena. Precisa só do suficiente.
SOBRE O AUTOR