UM CONVITE À TRANSISTÊNCIA

Palavras não são só signos, mas ferramentas de moldar o mundo, que nos permitem nomear o que sentimos, articular o que vemos, imaginar o que ainda não existe. São também importantes ferramentas na articulação do pensamento científico, mas diferente dos números, que são exatos, muitas das palavras usadas no universo técnico são também usadas para nomear processos da vida cotidiana.

Por exemplo, a velha conhecida palavra resistência. Resistir ao capital, à colonização, ao apagamento, à extração. Resistir é como um verbo de sobrevivência. Mas, no universo da eletrônica, a resistência está entre correntes e tensões. Enquanto é verdade que resistir salva vidas, na eletrônica, o resistor, como componente que resiste, se vê deteriorado diante de tamanho esforço para transformar corrente em calor. 

Tomando as licenças necessárias de elucubração na baixa teoria e com inspiração na relação resistor/resistência, um experimento mental com outro componente eletrônico, o transistor, nos leva a ideia de transistência. Diferente da resistência, que é uma grandeza do componente resistor, a transistência não é uma grandeza do componente transistor. A transistência é uma apropriação crítica de um conceito técnico, passível de inspirar um comportamento coletivo mais elaborado: uma forma de existência que não apenas se opõe ao que oprime, mas que modula, transforma e redireciona as forças que nos atravessam.

Para navegar entre significados, é necessária a apropriação de fundamentos da eletrônica, não como especialistas, mas como seres que habitam um mundo cada vez mais mediado por circuitos eletrônicos.

Do resistor ao transistor: uma virada cognitiva

O ser humano usa ferramentas como extensões da própria cognição. O telescópio de Galileu não ampliou apenas a visão; a partir desse olhar aumentado, ampliou e estruturou as formas de fazer ciência. Muitas outras ferramentas se desenvolveram de forma a nos fazer ver o que até então estava invisível. As ferramentas eram, neste caso, lentes que tornavam o mundo mais compreensível.

Conforme o tempo avança, as ferramentas são capazes de ver cada vez mais longe, cada vez mais perto, cada vez mais rápido. Inspiraram a criação de máquinas de produção em massa. E com o advento do neoliberalismo foram criadas tecnologias de bolso popularizadas ao redor do mundo. Os dispositivos digitais que tomaram o lugar das ferramentas para ampliação da cognição, passam a deixá-la cada vez mais turva. Em vez de ampliar nossa percepção, capturam nossa atenção. Em vez de expandir nosso tempo, o fragmentam. Em vez de conectar, isolam em bolhas algorítmicas. 

É nesse contexto que olhamos para dois componentes eletrônicos fundamentais: o resistor e o transistor.

O resistor é um componente cuja função é limitar o fluxo de corrente elétrica em um circuito. A corrente, ao passar pelo resistor, é reduzida, pois parte dela foi transformada em calor. O resistor controla a corrente, protege os componentes e cria obstáculo ao fluxo. Mas o processo de transformar corrente elétrica em calor consome energia e, sob estresse prolongado, queima. O efeito Joule não perdoa: quanto mais intensa a passagem de energia, mais o resistor se desgasta até se romper.

Já o transistor tem outra dinâmica de funcionamento. Inventado em 1947, representou uma revolução na computação substituindo as volumosas válvulas. Enquanto o resistor resiste à corrente, o transistor tem a capacidade de moldar a corrente. Um transistor pode amplificar um sinal fraco, pode atuar como interruptor, pode controlar grandes fluxos de energia com mínima entrada. Está no coração de todos os computadores, celulares e redes. Mas, mais que isso, o transistor não se queima com a passagem da corrente. Ele transfere resistência, amplifica e redireciona a energia.

Assim o transistor se comporta como uma porta inteligente, um nó de transformação. Permite que um sinal fraco comande um fluxo poderoso. É a base de toda computação moderna, verdade, mas também uma metáfora política urgente.

Durante muito tempo, nossas lutas foram pensadas como resistências, mas se voltarmos a fazer aquele encontro entre linguagens — a técnica e a política, a eletrônica e o cotidiano — não parece viável nos mantermos somente neste modo.

Daí surge o conceito de transistência, não mais uma postura de oposição pura, mas de transresistência ativa. Não uma negativa fixa, mas um “como?” e “pra onde?”, em inevitável movimento. Não um corpo que se opõe até se esgotar, mas um corpo que se deixa atravessar para reconfigurar o campo.

A transistência, não se opõe apenas ao que é, mas reorganiza as condições do possível.

Transistir à máquina que nos atravessa

Nossos corpos, mentes e relações já são híbridos técnico-biológicos. Usamos ferramentas que carregam os algoritmos e fazem escolhas por nós, ferramentas para o monitoramento que perdemos de nós mesmos. A máquina não está mais “lá fora”, já habita nossa cognição.

Mas, diante do inevitável, há dois caminhos:

Ou usamos a máquina como nebulizador dos nossos pensamentos e percepção, nos tornando reativos, dispersos, disponíveis o tempo todo para o aplicativo de mensagens instantâneas. Ou usamos a máquina como lente, como fez Galileu, para tornar o mundo mais nítido, deixando de ser dominado pela névoa do negacionismo que imperava pelo dogma religioso e que agora volta a imperar através da máquina colonial.

O componente transistor tem uma base, que precisa de um resistor polarizando-a. É como se essa polarização o direcionasse em sua missão no circuito. Assim como em um circuito eletrônico, os movimentos de transistência precisam ser polarizados pelos movimentos de resistência para moldar a máquina que nos atravessa.

A transistência se manifesta nos quilombos digitais que tecem infraestruturas próprias de comunicação, nas redes comunitárias que criam sua própria infraestrutura de internet, nos coletivos de tecnologia feminista que reprogramam o desejo fora da lógica da extração, nos movimentos indígenas que desenvolvem seus próprios servidores locais para demarcação das telas. Nas agroflorestas que curam o solo e o espírito ao mesmo tempo.

Para ilustrar melhor a transistência como forma de pensar e agir, vamos explorar o projeto de extensão SEMEA-TEC (UNIFESP-SJC). O projeto tem por princípio o desenvolvimento de tecnologias geradas a partir do contexto da agricultura familiar de base agroecológica. A metodologia conta com um processo participativo de “cocriação”, que respeita a cultura das famílias no contexto em que vivem, ao invés de impor uma forma de uso da tecnologia que ofusca a cognição.

Nesse exemplo, são desenvolvidos dispositivos de comunicação de baixo consumo que funcionam com baterias solares ou mesmo com energia extraída do ambiente. Na borda do sistema de comunicação temos sensores que avisam, via rádio, quando uma cerca elétrica foi rompida por javalis, ou quando o nível de um tanque de irrigação está crítico. Esses aparelhos não precisam da nuvem, não coletam dados para vender, não exigem atualizações mensais. São feitos com componentes acessíveis (como transmissores FM analógicos), montados com agricultores em oficinas que misturam saberes técnicos e populares.

É nesse gesto de projetar tecnologias que servem à vida e não ao lucro, que a transistência se concretiza. Enquanto o modelo comercial extrai energia, dados e atenção para alimentar cadeias globais de valor, essas práticas relocalizam a inovação, tornando-a energeticamente frugal, socialmente útil e cognitivamente clara. Não se trata de recusar a ciência, mas de reorientá-la. Ao invés de servir ao capital, uma ciência que serve aos territórios. E nesse movimento, o transistor deixa de ser apenas um componente e torna-se um símbolo do que é possível quando a tecnologia é feita com, e não para.

A dialógica com os movimentos, nas redes e nos circuitos da vida, revela uma urgência: aprender a ler as ciências que nos atravessam. Não para nos tornarmos engenheiros do sistema, mas para nos tornarmos técnicos da transformação. Quanto mais entendermos os princípios que regem as máquinas que habitam nosso cotidiano, mais poderemos desmontar suas lógicas opressoras e reprogramar seus sentidos. A Transistência nasce desse encontro: entre o saber técnico e o desejo coletivo, entre a física dos semicondutores e a poética da organização. E é nessa zona de polissemia, onde um transistor pode ser ao mesmo tempo um componente e um gesto político, que abre o espaço para sonhar com mundos que não apenas resistem à catástrofe, mas a atravessam, modulam e transformam — a transistem.

SOBRE O AUTOR

rbantu
19 de dezembro de 2025