I
por toda parte
Protestos pelas vidas palestinas eclodem em tantos pontos do planeta, da Malásia aos EUA, de Londres a Bogotá. Esses compõem uma terceira onda das revoltas globais (Sri Lanka, Sérvia, Nepal, Bangladesh, Indonésia, Filipinas, Madagascar, Marrocos, Peru e mais), depois da primeira a partir do fim de 2010 (Tunísia, Egito, Síria, Espanha, Grécia, Occupy, Taksim, 2013 brasileiro e tantas) e da segunda em 2019 (Sudão, Hong Kong, coletes amarelos, vidas negras importam, Chile, Equador, Colômbia, Haiti e Argélia, dentre outras), travada parcialmente pela pandemia.
Uma sublevação pela dignidade para todo mundo, logo contra a permanente guerra capital-colonial-racial e seu complexo militar-industrial, agora com IA. Esses atos enfrentam uma sinistra convergência repressiva, de ditaduras e democracias. São chocantes as respostas tirânicas — tanto dos EUA perseguindo organizadores dos acampamentos nas universidades, quanto as acusações de terrorismo por crime de opinião ou solidariedade à luta palestina pelos judiciários inglês, alemão ou francês.
As injustiças estão por todo lado, cada ponto é especial e a Palestina concentra sua carga peculiar. Um genocídio transmitido em tempo real. Na história dos últimos séculos, repleta deles (sempre singulares), os perpetradores negam sua existência no decurso e posteriormente. Um ignóbil terror se manifesta na tentativa de aniquilamento das existências palestinas — das pessoas, do lugar e seus elos —, ao visar casas, hospitais, escolas, universidades, jornalistas, sítios arqueológicos e sagrados, plantações e toda infraestrutura vital da Faixa, além da recrudescência na Cisjordânia. Nesse presente de horror total, se julga sortuda uma família que consegue enterrar seus mortos. O que clama essa luta-sobrevivência? E sua impressionante força que se mostra contundentemente na nova volta, após o segundo cessar-fogo, ao norte em escombros?
II
continuidades
Ao ler o dilacerante livro A limpeza étnica da Palestina, se escancaram as nítidas continuidades entre o que ocorre hoje e o processo de nascimento (e depois consolidação) do Estado sionista. Ilan Pappe escruta os arquivos do Exército israelense, das reuniões da Consultoria e os diários de Ben-Gurion nesse ano decisivo de 1948.
Em fevereiro de 1948, Ben-Gurion dizia em público estar ocorrendo uma guerra de eliminação dos judeus (os árabes sendo equiparados aos nazistas). Pappe, porém, vê nisso uma “manobra deliberada de relações públicas para garantir que, três anos depois do Holocausto, o ímpeto dos soldados judeus não vacilasse quando eram ordenados a limpar, matar e destruir outros seres humanos”. Insiste o pesquisador que em abril e maio os diários do líder enfocam os desafios organizativos da formação do novo Estado (e não assuntos militares), estando ausente essa percepção de um segundo Holocausto em curso. O tenebroso massacre (inclusive de crianças) em Deir Yassin indica “esse exercício ‘quantitativo’ — que os israelenses repetiram há bem pouco tempo, no massacre de abril de 2002 em Jenin”. O alto número de vítimas é um “um aviso para todos os palestinos de que destinos semelhantes os aguardavam se se recusassem a abandonar seus lares e fugir”.
Já em Sabbarin, perto de Haifa, por ter havido resistência armada, mulheres, velhos e crianças são “confinados atrás de arame farpado por alguns dias, como punição — de uma maneira muito parecida com as gaiolas nas quais os palestinos hoje são mantidos, por horas, nos postos de controle da Cisjordânia, quando não conseguem apresentar as permissões certas”. Todo um método de destruição e eliminação. Incluída a metáfora da doença a extirpar e a animalização. Nos anos 1970, um alto funcionário identifica os palestinos da Galileia como “câncer no corpo do estado”, enquanto “o chefe do estado-maior israelense, Raphael Eitan, abertamente se referiu-se a eles como ‘baratas’” nessa trajetória continuada, que leva o ministro da Defesa em outubro de 2023 a qualificá-los de “animais humanos”, justificando assim o cerco total de Gaza, com o bloqueio de água, comida e energia.
III
infraestrutura
A tomada do território é preparada pelo Mandato Britânico da Palestina. O Fundo Nacional Judeu, iniciado em 1901, constitui um instrumento primordial para a imigração em grande escala, após a primeira guerra mundial. Nas décadas seguintes, uma estrutura proto-estatal nasce, com uma esfera econômica distinta, com capital de fora e excluindo o trabalho árabe. Em meados dos anos 1930, mesmo sendo uma população minoritária, o setor já era superior à economia dos árabes. Tal iniciativa é auxiliada pela Associação de Colonização Judaica, fundada e vinculada a poderosos filantropos judeus alemães e franceses. Sua ação viabilizou a compra de terra e “os subsídios que permitiram à maioria das primeiras colônias sionistas na Palestina sobreviver e se desenvolver”.
O Mandato incentivou, assim, uma administração sionista paralela, com funções quase governamentais nas esferas da educação, saúde e obras, além de um “status diplomático internacional”. Nada similar existia para a população palestina. Esse conjunto foi decisivo, “base para um crescimento significativo da população judaica e a aquisição de terras estrategicamente localizadas que permitiram o controle da espinha dorsal territorial do país ao longo da costa, no leste da Galileia, e no grande e fértil vale de Marj Ibn ‘Amer que as conecta”. Israel foi sendo fundada aos poucos nesses pontos inicialmente isolados; lhe faltava a força militar para ser soberana.
A população judaica triplica (de 6% em 1918 para 18% em 1926), mas se estabiliza nos anos posteriores. Isso muda novamente em 1933, no governo nazista: com a caça sistemática aos judeus alemães e as leis discriminatórias britânicas e estadunidenses, o destino mais frequente torna-se a Palestina (chegam em 1935 mais de 60 mil, “um número maior que toda a população judaica do país em 1917”). Em 1939, a proporção judaica na população alcança quase um terço. Por outro lado, a repressão feroz e sangrenta (com 100 mil soldados e uso da força aérea) à Grande Revolta contra o domínio britânico, em 1936-1939, deixa suas marcas, com “14% a 17% da população árabe masculina adulta morta, ferida, encarcerada ou exilada”.
IV
alicerce coletivo ancestral
Como elaborado pelo escritor libanês Elias Khoury, “para os judeus se tornarem um povo como outros povos — e ‘outros povos’, aqui, significa os povos europeus —, tinham primeiro que inventar seus próprios judeus”. Trata-se de um ataque aos expulsados e a seu passado — os palestinos nunca teriam existido, uma declaração que retorna constantemente. Ademais, “há um amplo material literário dedicado a provar que, antes do advento da colonização sionista europeia, a Palestina era estéril, vazia e atrasada”. O trabalho e força dinâmica dos imigrantes a teriam transformado, ilustrado pelo slogan sionista uma terra sem povo para um povo sem terra, não por acaso também usado pela ditadura empresarial-militar brasileira nos anos 1970 no seu projeto de colonização da Amazônia.
“Ouviremos a voz dos ancestrais… nos ventos, tomaremos seu pulso nos brotos das árvores. Essa terra é nossa avó sagrada, pedra por pedra, é uma cabana de deuses que habitaram conosco e iluminaram, a cada estrela, nossas noites de oração…”. Elias Sanbar, diplomata palestino, em conversa com seu amigo Gilles Deleuze, aproxima os povos palestino e ameríndios. Israel nasce, assim, de forma similar aos EUA, substituindo o autóctone: para cumprir seu destino manifesto, torna-se necessário fazer tábula rasa dessa presença anterior. As vítimas palestinas entram num vazio; “o Estado de Israel agindo como uma formidável máquina que fabrica a ausência palestina, pelas armas, deslocamentos forçados, mas também o apagamento sistemático dos traços, de todo traço, dos que a partir daí, privados de seu nome, apodrecem nos campos de refugiados, relegados a um universo de lonas e barracas”.
Assim como os mitos ameríndios encarnam um alicerce ético-estético cosmopolítico para seus povos, a poesia e literatura árabe e palestina exercem potência semelhante, que vem de longe e floresce no combate ao silêncio de seu desterramento. O escritor Hussein Al-Barghouti, ao se saber de partida iminente por conta de um câncer terminal, retorna ao vale ancestral de sua família, e narra, nos seus passeios noturnos, uma terra e um vale (Deir al-Jouwani, na aldeia de Kobar, não muito distante de Ramallah), habitados por pequenas serpentes coloridas [za’ra] que podem voar acima das montanhas, num “mundo de raposas, hienas, djinns [espíritos] e quantidade de seres invisíveis”. Oliveiras, figueiras, amendoeiras. Hussein respira nessas histórias o ar de outros lugares e tempos, iluminados pela lua (cuja luz opõe às das colônias, agora próximas), “capaz de lhe inspirar a força dos começos para fazer frente à ‘dureza dos fins’. O imaginário é energia (…). Nada nunca termina realmente nessa Terra Santa, tudo sempre volta. Ou, como disse o poeta Mutanabbi: ‘o que passou continua a vir, pois o que deve vir já partiu!”
Mais ao norte, o vilarejo de Mujaydil sobreviveu inicialmente à Nakba, a maioria dos dois mil moradores tendo fugido para Nazaré. Os cristãos, graças à intervenção do Papa dois anos depois, obtiveram o direito de voltar, mas não aceitaram fazê-lo sem seus vizinhos muçulmanos. Como resposta, Israel derrubou metade das casas e uma mesquita. Pappe reconstitui sua vida cotidiana antes da Catástrofe, indicando “o desaparecimento de toda uma comunidade, com suas intrincadas redes sociais e feitos culturais”. Neste lugar conhecido “por seu elaborado sistema de coleta de água da chuva do telhado da mesquita, diretamente para um poço”, havia muitas escolas, religiosas, mas também uma pública, “a Banin, famosa pelas magníficas árvores que faziam sombra ao recreio das crianças, pelo poço situado no meio do pátio e pelas árvores frutíferas a seu redor”. Uma joia, “que sustentava todas essas obras impressionantes, era um moinho construído no século XVIII, que servia aos vilarejos dos arredores, incluindo a população do assentamento judeu ‘veterano’ de Nahalal (Moshe Dayan, que veio de Nahalal, mencionou como seu pai dependia do moinho)”. A operação militar que conquista Nazaré e seus arredores teve como nome Dekel [palmeira] e o historiador relata que hoje são pinheiros que cobrem muitos desses vestígios, agora um “’pulmão verde’ plantado pela agência Nacional Judaica com o propósito de ‘recreação e turismo’”.
V
picada
Nosso rumo coletivo se decide ali? A questão palestina tem um laço vital com o Brasil — com as lutas indígenas pela comunalidade da terra e as contra a máquina de morte, na sua matança permanente nas periferias/campo/florestas/aldeias/quilombos (que importa instrumentos e métodos comprovados por Israel). E com o caminho da amizade e da solidariedade. Jean Genet, escritor francês que andou pelos campos de treinamento e de refugiados nos anos 1970-1980, interrogado sobre sua ajuda aos palestinos respondeu ser uma besteira dizer isso, pois era justo o oposto, já que foram eles que o ajudaram a viver. Já ouvi, no movimento indigenista, a imagem da picada (de cobra) para marcar uma virada na trajetória militante quando uma pessoa é tocada pela beleza existencial indígena e isso se torna um compromisso para sempre, de vínculo-luta. Me parece que algo semelhante acontece com a Palestina. A Nakba segue e ainda não conseguimos brecá-la, mas uma nova geração se levanta. Como disse um rabino formado na terra santa palestina, “não esperamos o Messias, é ele quem nos espera”.
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