FEMINISTAS CISSEXUAIS PRECISAM REALMENTE DE SALVAÇÃO?

Por Bru Pereira

No seminário Pessoas transgênero na política do Sul Global, a ativista khwajasira, Mehrub Moiz Awan, fez uma importante provocação às pessoas presentes ao afirmar que feminismos do Norte Global delegaram para uma multidão de sujeitos que escapam aos regimes binários de sexo/gênero, ao redor do mundo, a tarefa política de defender o slogan progressista de que mulheres trans são mulheres, sem reconhecer que esse problema é, antes de tudo, um problema de mulheres cissexuais. A provocação de Mehrub foi um chamado para que aquelas que, insistentemente, nos colocavam a questão de como resistir e enfrentar a emergência global de feminismos antitrans se implicassem no problema que identificavam e para o qual pareciam não encontrar uma resposta. A fala da ativista e pesquisadora paquistanesa era inequívoca ao afirmar que o problema de sustentar a afirmação de que mulheres trans são mulheres deveria ser assumido por aquelas que, de fato, se sentiam paralisadas diante do que percebiam como uma aberração política por parte de feministas antitrans. Havia um sentimento entre feministas cissexuais transinclusivas de que as políticas antitrans feministas eram um contrassenso que desafiava o que sentiam como um senso comum — ou talvez, um bom senso — feminista de que a luta de mulheres transexuais era uma luta feminista, exatamente porque a afirmação de que mulheres trans são mulheres não podia ser outra coisa que não uma afirmação óbvia o suficiente para não ser recusada. Assim, a recusa a incluir de mulheres trans na categoria política mulher aparecia como uma espécie de feitiço que, se não as paralisava politicamente, fazia com que experimentassem como a única forma de ação política a repetição contínua — na forma de defesa do óbvio — do slogan mulheres trans são [obviamente] mulheres.  

Neste ensaio, pretendo elaborar o impasse cultural da perda de agência de sujeitos políticos cissexuais do feminismo diante da onda antitrans que parece inundar o feminismo global contemporâneo, sem aceitar que a resposta deva necessariamente vir de uma defesa transexual de sua inclusão na categoria política Mulher. Tal objetivo requer uma certa dose de prudência, já que, como uma pessoa transexualmente posicionada, poderia facilmente escrever — ou ser lida como —  oferecendo uma defesa acerca de meu próprio posicionamento, enquanto mulher. Contudo, aceito a provação de Mehra de que esse não é meu problema, ainda que tal problema, não sendo nosso, ainda nos coloque algumas questões. Aceito também o pedido de ajuda de minhas camaradas cissexuais, para quem tal problema parece constituir um impedimento para agir, também para pensar e sentir diante da perda de um sentido comum, que a posição feminista parecia fornecer para elas. É claro, o pedido de ajuda nem sempre aparece de forma direta, e as formas pelas quais chegou até mim — além daquela formulada no seminário em que ouvi a fala de Mehrub — revelam um tanto dos contornos que o impasse cultural da perda de agência feminista assume. 

Em dois momentos o pedido de ajuda pareceu chegar a mim e me motivou a escrever este ensaio. O primeiro momento veio na forma de uma persistente e afetivamente carregada recusa em reconhecer como feministas as posições antitrans do feminismo contemporâneo ou, mesmo, em permanecer com o problema de levá-las a sério como inimigas. O segundo momento, foi durante um encontro de mulheres, em que uma conversa sobre gestão de crise em organizações da sociedade civil levou as participantes cissexuais a relatarem somente casos em que foram acusadas de transfobia; o que foi sentido pelas relatantes como um não reconhecimento enquanto aliadas — ou enquanto feministas “boazinhas”, o que é um absurdo. Ambos momentos parecem revelar uma posição moralizada do feminismo, em que ser feminista é ser uma pessoa boa. Dessa forma, as más pessoas, transfóbicas, jamais poderiam reivindicar-se feministas. 

No entanto, ouvir o pedido de ajuda na forma de um pedido de salvação do feminismo de suas más representantes não nos habilita a compreender o que Mehrub quis dizer ao proferir que a defesa de mulheres trans enquanto mulheres é um problema de mulheres cissexuais. O que é definir como um problema de mulheres cis a afirmação da mulheridade de mulheres trans? A ativista khwajasira sustenta seu argumento com um exemplo que pode nos ajudar a responder essa questão; ainda que pareça, à primeira vista, um argumento politicamente pouco saliente. Ela disse para as feministas cissexuais presentes, a maioria heteropressupostas, que deveriam começar o trabalho de assumir essa questão, se havendo com o fato de que seus namorados, ou maridos, ou companheiros, poderiam se atrair por mulheres transexuais ou até mesmo ter, em algum momento, se relacionado com alguma. E que tal fato não deveria ser encarado como uma fonte de suspeita do desejo deles por elas. 

Como disse, à primeira vista o argumento parece politicamente pouco relevante, ainda que tenhamos aprendido a entoar o canto feminista de que o pessoal é político. Neste caso, politizar a ansiedade cisfeminina acerca da possibilidade do desejo heterossexual dirigido à transfeminilidade, é encarar que tal ansiedade pode revelar que a demanda por igualdade do slogan mulheres trans são mulheres é, de fato, um problema de mulheres cis, na medida em que é um problema para mulheres cis corporificar efetivamente uma colocação em igualdade entre as mulheridades cissexual e transexual. Poderíamos ir ainda um pouco mais longe, na elaboração de tal ansiedade, ao considerar que a paralisia feminista diante do feminismo antitrans — e sua percebida necessidade de reafirmar a suposta obviedade da relação entre transexuais e cissexuais — é, antes, uma ansiedade sobre assumir a igualdade radical com mulheres trans. 

De fato, o estabelecimento de distâncias adequadas entre mulheres cis e mulheres trans é uma recorrência histórica em momentos de redefinição social da diferença sexual, necessária para a sustentar a ficção política da cissexualidade; talvez estejamos testemunhando o colapso de tal política do distanciamento cuidadoso, que marcou a entrada da transgeneridade no mundo neoliberal, da inclusão através da noção de igualdade de direitos. Eu não poderia recontar, neste breve ensaio, a conturbada história da emergência da noção de transgeneridade no circuito transnacional dos direitos humanos e o deslocamento que ela operou na categoria da transexualidade e em outras formas de construir um sentido autônomo acerca da diferença sexual. Pretendo somente reter a síntese, formulada por Andre Long Chum, de que tal contexto redefiniu as experiências transfemininas de uma identificação com as mulheres para uma identificação como mulheres. Num certo sentido, a passagem foi uma conversão: do projeto político transexual baseado no desejo para um outro projeto político centrado na noção enfraquecida de identidade. Tal conversão demandou que sujeitos transexuais passassem a defender, na esfera pública da reivindicação de direitos, que mulheres trans são mulheres. No entanto, essa reivindicação já era, por si mesma, sobredeterminada pela sobredeterminação do significado da categoria Mulher a partir de seu referente maior, mulher cissexual. Tal sobredeterminação pode ser visualizada na circulação ubíqua da separação entre sexo e gênero nas instituições euramericanas, que alinha as demandas trans a uma reivindicação do direito à identidade de gênero e não a uma contestação profunda da significação da diferença sexual.

Contudo, ainda que expressos por meio do idioma da identidade, os experimentos transexuais com a diferença sexual continuaram a impor um rearranjo de todo o campo material-semiótico das relações sociais, o que se tornou um paradigma para as políticas de gênero contemporâneas. A reação antitrans do feminismo pode ser encarada como uma resposta a tais rearranjos, assim como a paralisia de nossas camaradas nas fileiras do feminismo transinclusivo. Quando Mehra coloca como um problema para as mulheres cissexuais a defesa da mulheridade transexual, habita o ensinamento histórico desta última década de que a autoafirmação trans, de uma identidade de gênero, não resolverá a questão. Somente com a tomada de uma posição de nossas camaradas diante de tais rearranjos materiais-semióticos das relações sociais — como a redefinição em curso do desejo heterossexual — conseguiremos responder à altura do impasse cultural em que nos encontramos atualmente. O que irá envolver a destituição do paradigma transexual do estatuto de um estado de exceção. 

Sinto que devo tornar mais evidente para minhas camaradas o que vislumbro como uma tomada de posição para elas, ao assumirem como sua a questão de sustentar que mulheres trans são mulheres, salvando a si próprias do sentimento de perda de agência e, não necessariamente, salvando o feminismo de suas más representantes. A exceção transexual que comenta MacKenzie Wark, ou o paradigma transexual de Luce deLire, tentam reconhecer que mulheres transexuais destronam a Sua Majestade, o Sexo, de sua pretensa naturalidade, validada pelo Estado, ao reivindicarem-no como a “matéria bruta para uma técnica de (re)criação autônoma”. Essa é uma reelaboração radical da anatomofisiologia política, que demanda uma operação de transformação do slogan político mulheres trans são mulheres por meio da reversão da relação predicativa que ele expressa. Isso não quer dizer que a palavra-de-ordem a partir de agora deve ser “mulheres cis são mulheres”, mas que o que deve ser vislumbrado é a coragem de afirmar que mulheres (cis) são mulheres trans — e aqui a elisão do termo cis é, de fato, indiferente —, o que as tornará capazes de assumir, como Wark defende, “sua própria relação infundada e ingovernável com a natureza”. Por meio dessa tomada de posição, o que se alcança é menos a recuperação do feminismo que a experimentação lúdica e, portanto, erótica com a beleza transexual de existir não como mulheres, mas com as mulheres. 

A passagem de uma política da comparação para uma política da juntidade, expressada pela distinção dos termos como e com em sua relação com o substantivo comum — e, portanto, genérico —, “mulheres”, reativa uma sensibilidade para a abundância e exuberância, próprias às estéticas das existências transfemininas que, apesar de se “deleitar[em] no potencial para o subterfúgio”, igualmente recusam a acusação de engano. Jules Gill-Peterson descreve como fruto de uma mentalidade de escassez presente nas versões contemporâneas do feminismo transinclusivo, o ímpeto em apagar o reconhecimento de que “Mulheres trans são extra” e que a “Trans feminilidade é demais”. De fato, como nota a autora, a demanda da transmisoginia é a supressão de uma feminilidade excepcional, percebida como exagerada, mas o exagênero transvesti é a evidência para a possibilidade de recriação autônoma do corpo, como comenta Wark. Talvez seja por isso que a recuperação de uma agência feminista cissexual resulte da reivindicação de que mulheres são mulheres trans, como um clamor menos pela equalização do sentido e significado de “mulher”, que uma atualização da proposição transfeminista de retomar o corpo do Estado não mais na forma de propriedade, mas como o lócus de uma redistribuição de autonomia e prazer entre camaradas.

Diante da urgência do impasse, no qual feministas cissexuais parecem se encontrar, vocês, minhas camaradas, podem suspeitar da proposta ensaiada como meramente estética. Mas a estética aqui defendida, assenta-se sobre uma sensibilidade transfeminina, que expressa uma “mudança em como a vida se relaciona com a sua própria narrabilidade”. Uma sensibilidade que não clama por inocência, pois é movida a pensar, sentir e imaginar fora do olhar cis, que parece gerar a ansiedade paralisante diante da necessidade da afirmação radical de igualdade entranhada na provocação de Mehrub. O convite que faço não é para a crença na salvação pela estética, mas para a experimentação com a arte e a traquinagem — essas ferramentas apropriadamente transfemininas — de criar para si e para as outras uma outra forma de vida. 

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SOBRE O AUTOR

rbantu
19 de dezembro de 2025