ACREDITAR EM NOSSA GENTE

Por Erahsto Felício

I

“Quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos outros. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: eles já receberam a sua recompensa. Mas você, quando orar, vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que não pode ser visto. E o seu Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa”. (Mateus capítulo 6, versículo 5 e 6)

A violência colonial que vivemos em nossa história lança às forças de esquerda um sentimento de solidariedade que, em muitos casos, acaba por se apiedar dos nossos povos. Hoje, costumamos dizer que esse sentimento de piedade diante do outro é um sentimento cristão, da mesma tradição religiosa que construiu o colonialismo. Talvez isso nos sirva de lembrança de que não se trata de um bom indicador para nossa conduta na luta. Mesmo quando estamos diante de genocídio como hoje ocorre com o povo palestino em Gaza ou com o povo pataxó no Extremo Sul da Bahia, há todo um movimento performático de como se comportar publicamente diante dos fatos horrorosos que esses povos vivem. Seja pelas tags em redes sociais, seja portando símbolos daquela luta publicamente, as esquerdas adotam tantos meios quanto necessários para demonstrar seu apreço por aquela causa. A pergunta que faço é: elas estão dispostas a parar os genocídios com toda sua capacidade de força política ou estão apenas manifestando sua melhor expressão publicamente? Toda solidariedade que faz movimentar as relações de força parece importante em cenários de genocídio. Contudo, recordo do movimento “Somos todos Kaiowà”, que ocorreu lá nos idos de 2013, há doze longínquos anos. De lá para cá o que podemos dizer sobre a manutenção do genocídio quando todos nós perfomamos sofrer aquela dor, que não sofríamos? Quando nos apiedamos em público estamos mais falando sobre nós mesmos do que sobre o objeto de nossa piedade. Mais do que isso, ao gastarmos nossa energia, dinheiro e tempo manifestando nossa piedade, deixamos de usá-las em objetivos materiais, palpáveis e revolucionários de transformar a sociedade para que tais cenas não sigam se repetindo. O amor profundo à humanidade não pode ser confundido com produção de uma autoimagem humanista superficial sob o risco de que as futuras gerações acreditem que lutar é parecer que luta.

II

Quem sente a dor é quem geme. (Ditado popular recolhido em meio às lutas territoriais na Bahia)

Quando me aproximei das lutas territoriais como um professor da educação básica em busca de expressar minha solidariedade, assumia que precisava apoiar, intervir e ajudar todas as situações de conflito que passassem próximas de minha atuação. Quando cheguei à frente da divisão de comunicação da Teia dos Povos, quase todas as situações de violência invariavelmente passavam por mim de forma direta ou indireta, fosse para divulgar ou para conseguir solidariedade. Em uma dessas situações, que envolvia um quilombo num arquipélago assediado pelo turismo no litoral baiano, recebi o comunicado que os latifundiários entraram com gente armada e estavam torturando os moradores — ao menos uma família era amiga nossa. Correndo liguei para um conselheiro da Teia dos Povos que me perguntou: “Erahsto, eles te pediram ajuda?”. Respondi que haviam me informado do acontecido, e ele insistiu: “mas pediram tua ajuda?”. Eu respondi que, textualmente, não teriam pedido. Ele concluiu: “então fica na sua”. 

Naquela semana, ainda sem ter entendido, já íamos nos arrumando em canoa para rumar para o quilombo e ajudar como podíamos, quando recebemos uma mensagem do quilombo dizendo para não irmos. As mulheres do quilombo recepcionaram os jagunços que viram que não havia homens na comunidade. Elas disseram, palavras mais, palavras menos: “o que acontecer com a gente aqui hoje acontecerá com vocês”. Os homens da comunidade estavam de tocaia e não queriam ninguém de fora para não dar bandeira. O final da história é a vitória do quilombo contra o latifúndio e na sequência eu me dando conta da minha desimportância, também. Nossa gente tem a força necessária para sua própria libertação. O papel do militante revolucionário é estar junto, mas não achar que depende de si a libertação de quem quer que seja. No vácuo da busca pelo protagonismo militante é que surgem as mais revolucionárias transformações.

III

Nós estamos acostumados a sair de casa para perder. (Hamilton Borges em discurso no quinto aniversário da Chacina do Cabula em frente ao monumento em memória aos jovens)

Acreditar em nossa gente é abandonar todo nosso paternalismo na porta de entrada da luta. Porém, é preciso fazê-lo sem qualquer idealização que lhe possa retirar de uma interpretação justa da realidade. Entre os oprimidos há uma quantidade absurda de gente safada e disposta a trair seu povo, sua causa e a libertação de sua gente. Não dá para idealizar nosso povo, acreditando que a revolução se avizinha e basta uma fagulha para tudo mudar. Nós iremos perder inúmeras batalhas. Há que se visitar cemitérios e páginas policiais para entender isso. Quantos que ali estavam não tiveram a possibilidade de começar a luta porque foram ceifados por gente de sua própria classe social a mando do Estado ou a serviço de uma multinacional neoliberal do crime? O julgamento ético de que o jagunço que atira nos pataxó por quinhentos reais é alienado não impede a bala de atravessar aqueles corpos vermelhos. De igual forma, o julgamento racial de que os policiais da Bahia possuem a mesma cor dos corpos que assassinam não impede as chacinas de ocorrerem cada dia mais. Esses questionamentos, que visam a manifestar ou ocultar a humanidade e a alienação do policial que faz chacina, do trabalhador que abraça o fascismo, do pobre empreendedor que se acha patrão e etc. só fazem barulho mental nas esquerdas. Parte sensível de nossa derrota está na conta dos peões no tabuleiro de nossos inimigos. Compreender que, independente daqueles que traem nossas lutas, há ainda muita gente perdida entre nós nos dá o discernimento para entender que nossas derrotas possuem lugar em nossa trajetória. E não falo aqui apenas de aprendizado, mas de retidão na conduta. É correto estar do lado derrotado quando há tanto poder, dinheiro e brutalidade do outro lado. Se preparar para transformar isso é também estar pronto para desenvolver um dos principais atributos revolucionários em nosso tempo: constância. Se o nosso caminho é justo, se nosso programa político é emancipatório, a adversidade de nossa conjuntura não é justificativa para pararmos.

 IV

Em verdade, com a adversidade está a facilidade! Certamente, com a adversidade está a facilidade! (94ª Surata corânica – “O Conforto”, ayat 5 e 6)

Os tempos ruins e  as conjunturas desfavoráveis nos aproximam de nossas melhores companheiras, de nossos melhores companheiros, de gente que possui um amor à humanidade inabalável. É quando só ficam aqueles que entendem as lutas revolucionárias como princípios poderosíssimos. Quando conheci a história do Movimento de Comunidades Populares, uma experiência com tanto tempo de atuação política,  fiquei chocado por não ter conhecido antes uma gente que está em quatorze estados, com comunidades organizadas, possuindo uma organização que passou pela resistência revolucionária à última ditadura com tanto tempo em atividade. Uma parte de minha surpresa era uma crítica a mim mesmo, outra parte dizia respeito aos intérpretes das lutas, analistas de conjuntura, que nem imaginavam essa luta e seguiam acreditando poder falar da capacidade de organização da classe, ignorando sumariamente essa experiência. 

Como pode uma organização seguir tanto tempo existindo com contribuições sólidas de práticas de autonomia nos territórios, tendo creche, banco, transporte, financiamento coletivo de construção de moradia e etc, enfrentando tantas adversidades que vão de governos a facções, e, mesmo assim, insistir na luta? A resposta? “Quem ama de verdade vive no coletivo e não passa necessidade”, escreveram na sede do movimento. Os fundamentos para a construção de novas formas de viver não dependem das conjunturas. São princípios norteadores que seguem existindo com governos reacionários ou progressistas, em tempos de guerra em nosso continente ou de falsa paz, em fluxos ou refluxos da luta na base. Foi em um dos piores momentos de nossa conjuntura recente, após o golpe em Dilma, prisão de Lula, governos Temer e Bolsonaro, pandemia, que a Teia dos Povos, por exemplo, conseguiu não só se reorganizar internamente na Bahia como expandir para oito novos estados no Brasil. Quando a adversidade aparece e o céu da luta política escurece, é então que qualquer brilho, por pouco que seja, pode se tornar farol. É num momento de descrença na luta política que quem tem fundamento consegue promover alianças com quem valoriza os princípios da luta e possui a postura correta de combate. 

V

Nós zapatistas NÃO queremos voltar a esse passado, nem só, nem muito menos de mãos dadas a quem quer semear o rancor racial e pretende alimentar seu nacionalismo tresnoitado com o suposto esplendor de um império, o asteca, que cresceu às custas do sangue de seus semelhantes, e que nos querem convencer de que, com a queda desse império, os povos originários desta terra fomos derrotados. (Subcomandante Insurgente Moisés)

Nem tudo que podemos nos convém, nem tudo que reluz é ouro. Na ânsia de nos libertarmos das teorias políticas que julgamos nos colonizar, muitos de nós correm para o passado em busca de referenciais que nos ajudem a romper os grilhões intelectuais que nos aprisionam. Em nossa trajetória, em nossa história, há uma farta documentação de erros cometidos por nossa gente. Esses erros vão aparecer com sinais trocados usados pelo poder, pela dominação, nos dias de hoje. Da mesma forma que o poder do Estado usa Zumbi como símbolo de resistência negra e ataca direito de quilombolas, nós vamos ver também lideranças anti-revolucionárias, que jamais tomaram terra e que fechavam as portas para movimentos de massa se aliarem à luta, transformando-se em referência aceita do mundo corporativo até os salões das universidades. 

Insistir no caminho revolucionário é também não nos deixar confundir. Não é porque é de nossa cor, veio de nossas bases ou tem nosso cabelo que serve para nos representar. Não é porque possui tradição que não fará traição. Aprender a caminhar com nossa gente de luta não é criar idealizações infantis sobre suas lideranças ou sua história. As contradições que movem a história moveram também muitas biografias de gente rebelde e disposta a dar sua vida pela causa. Mas, creia, muitas biografias de grandes representantes do povo existem apenas para endossar as posições reacionárias desses na luta hoje. Ninguém deve servir a dois senhores. Nem mesmo a um. Nossa luta precisa romper a ilusão paternalista de que haverá salvadores. Devemos seguir apesar deles porque nos importa vencer o racismo, o patriarcado e o capitalismo. Apenas a luta de hoje pode redimir nossos mortos. O passado não existe, não pode nos salvar do pesadelo que é viver nesses tempos. Nossas memórias existem, só elas podem nos ajudar a aprender com nossos mortos!

SOBRE O AUTOR

rbantu
19 de dezembro de 2025