As Mulheres Não São Horríveis – Introdução de Feminismos inimigos (TERFs, Policewomen and Girlbosses)

Nota editores: Publicamos aqui a tradução da introdução completa do livro Enemy Feminisms: TERFs, Policewomen, and Girlbosses Against Liberation de Sophie Lewis (2025). O livro nos parece uma reflexão urgente que tensiona a prática (e teoria) feminista em um complexo diagrama de poder, sinalizando para as histórias que entrelaçam colonialismo, supremacismo e muitas formas de violência total que hoje podem assumir enunciados feministas sobre liberdade, segurança ou empoderamento. Trata-se de uma intervenção necessária para pensar a hipótese de que a guerra em curso contra as formas autoritárias e aniquiladoras também é ocupada pelo papel dos “feminismos inimigos” em aliança com os regimes de poder e controle no nosso presente. Sophie Lewis nos provoca a pensar formas mais interessantes de associações liberatórias e transfeministas: multiespécie, abolicionistas, tecnológicas, exuberantes e que insistam na prática de contar boas histórias.


por Sophie Lewis 1

Tradução: Agnes de Oliveira2

“Alerta: mulheres não estavam realmente envolvidas naquela coisa toda de Império.”
—Twitter.3

“As mulheres não são horríveis”, disse a artista Jenny Holzer em uma entrevista em 2023, em resposta a uma pergunta sobre “o futuro do movimento feminista”.4 Se Holzer pudesse falar com sua versão mais jovem, continuou ela, aconselharia a jovem Jenny a não se sentir “culpada” por fazer do feminismo um foco “constante, declarado em voz alta”. Implícita na afirmação de Holzer está a ideia de que, se as mulheres fossem horríveis, faria sentido ser apologética em relação ao feminismo. De certo modo, é sorte que as mulheres não sejam horríveis, porque nossa não-horribilidade é parte do que legitima uma posição feminista sem reservas. “Em grande medida, não somos o problema”, repete Holzer.

Acho que sei por que feministas dizem isso e por que acreditamos nisso, não menos porque eu mesma passei vinte anos fazendo isso. Mas “as mulheres são horríveis” e “as mulheres não são horríveis” são, na verdade, dois lados da mesma moeda, e ambos são razões ruins para fazer feminismo. Uma declaração apenas inverte a outra, mantendo intacta a premissa de que a opressão de gênero é uma espécie de questão de relações públicas — um problema de pessoas julgarem mal o valor inerente do grupo. Pedestais e pelourinhos, gestos de absolvição e de incriminação, tudo isso faz parte da construção da mulheridade [womanhood] há muito tempo, e exaltar a inocência ou a “bondade” das mulheres em relação aos homens não nos tira desse circuito. Isso não é libertador — é tão desumanizante quanto dizer “mulheres são um saco”. Por que as mulheres não seriam horríveis? Elas não fazem parte da história?

Correndo o risco de soar dramática, consigo farejar o antifeminismo como um cão farejador desde que fui capaz de formar frases complexas. Posso facilmente captar o cheiro da ginofobia, mas também detecto o ódio direcionado especificamente às feministas. Ambos podem emanar de mulheres — até mesmo de feministas. Afinal, por que não seria assim? Também já percebi vislumbres de formações sexistas e misóginas em mim mesma.

Acho que alimento emoções feministas desde os cinco anos de idade, estacionada em frente à TV assistindo a uma fita VHS da adaptação de Ingmar Bergman da ópera de Mozart A Flauta Mágica (1975), apenas para ser repreendida por me identificar com a Rainha da Noite (die Königin der Nacht). Caso você não saiba, a Rainha da Noite é uma mulher emocionalmente ferida que vive no exílio com um grupo de outras mulheres bruxonas. Ela está enfurecida, privada de sua filha Pamina (que foi sequestrada pelo pai), e canta algumas das árias mais difíceis que existem.

É preciso dizer que meu irmão mais novo e eu assistíamos a qualquer coisa. Mas as opções eram limitadas nas prateleiras da nossa coleção empoeirada de fitas de vídeo por volta de 1993, então, geralmente, era A Flauta MágicaDie Zauberflöte, como é conhecida em alemão — ou Bambi (1942) da Disney, no qual a mãe, de forma aterrorizante, é morta a tiros. Éramos, em meio período, crianças que ficavam sozinhas em casa, em um lar expatriado de nacionalidade mista (alemã/inglesa), branco, na França, que, como você provavelmente pode imaginar, era de classe média. Ambes gostávamos de usar véus longos feitos de lençóis velhos, vestidos “elegantes” e tiaras de plástico, correndo pela casa e pelo quintal, entoando nossas melhores imitações da famosa soprano coloratura. Estávamos completamente desinteressades no final do filme da ópera, quando a rainha é desmascarada como má, e o rei que ela tenta assassinar, Sarastro, acaba sendo revelado como um deus solar iluminado — o senhor do templo maçônico ao qual todos aderem no final feliz.

Você poderia pensar que, quando nosso pai nos interrompeu certa noite, seria porque nossas performances operísticas estavam desafinadas. Mas, no final das contas, ele estava irritado com outra coisa. Disse que estávamos errados em tomar o partido da mãe perversa da princesa Pamina. Em vez disso, deveríamos simpatizar com o pai injustamente difamado. Não achávamos que Sarastro provavelmente tinha bons motivos para banir sua esposa? Tínhamos parado de assistir antes da parte em que ele é revelado como bom? (Tínhamos.) Por que gostávamos tanto da rainha?!

Ambes começamos a chorar histericamente. Banida? Mães podem ser banidas? Gritamos em terror. Soquei a parede. “Não”, gritei, leal a die Königin der Nacht, “não, não, não”. Mas meu pai, segundo a história, manteve-se firme e gritou de volta: “A Rainha da Noite não é a boazinha!” Até hoje, sinto uma coceira nas pontas dos dedos para digitar “sim, ela é, sim, ela é”. Mas, para constar, meu pai estava certo, e eu estava errada. A Rainha da Noite é a vilã. E, ainda assim, até hoje, uma veia no meu corpo se agita, pronta para lutar, sempre que uma mulher estranha é transformada em vilã ou uma matriarca é rebaixada. “As mulheres não são horríveis!”, tenho vontade de gritar. “Em grande medida, não somos o problema!”

Quando eu tinha trinta e um anos, muitas mulheres gritaram a mesma coisa para mim. Um editor de jornal me pediu que escrevesse um artigo de opinião que apresentasse aos leitores americanos o “feminismo radical trans-excludente” (TERFismo), um fenômeno de “direitos baseados no sexo” profundamente nada radical, que vinha dominando há anos as discussões principais sobre justiça de gênero no Reino Unido.5 O “gancho” era uma viagem de 2019 a Washington, DC, financiada pela fundação conservadora Heritage Foundation, de um pequeno grupo de feministas britânicas, que protestaram contra a “ideologia transgênero” ao emboscar a secretária de imprensa nacional trans da Human Rights Campaign, Sarah McBride.6 “Parem com o apagamento do feminino!”, gritaram as “ativistas pelos direitos das mulheres”, não convidadas, enquanto filmavam o constrangimento de McBride com seus celulares. Esse tipo de hostilidade anti-trans era, para muitos americanos, algo novo em 2019. Por que o feminismo na Grã-Bretanha estava tão paranóico em relação a uma suposta ameaça existencial que mulheres trans representariam para mulheres cis, quando nada semelhante, com recursos comparáveis, existia nos Estados Unidos? Tentei responder da melhor forma possível. Expliquei que uma cultura nacional de antiutopismo “pé no chão” prevalece na chamada Ilha TERF. O “compromisso com a miséria, com ser uma ‘mulher extremamente difícil’”,7 como coloca o escritor Asa Seresin, notadamente ao zombar e bloquear as tentativas de autorrealização de outras pessoas, é uma das principais forças que impulsionam a insistência obstinada no preconceito anti-trans ali. Esse é o contexto no qual feministas britânicas rotineiramente enquadram “gênero” como algo de alguma forma autoindulgente e frívolo. Ter ou mencionar (quanto mais reinventar) uma identidade de gênero é, para as TERFs, uma forma de individualismo que demonstra desprezo pelas mulheres “comuns”.

Essa postura permite que elas digam a si mesmas que sua oposição às políticas do Serviço Nacional de Saúde (NHS) para pessoas trans constitui um ataque “de baixo para cima”, e não o contrário. Trata-se de uma narrativa de autodefesa justa contra uma suposta invasão neoliberal predatória, mas, em seu alarmismo sobre uma alteridade de gênero fluida e estrangeira, ela se funde perfeitamente com um feminismo britânico do medo muito mais antigo. A construção da mulher trans carregada de ameaça sexual é, afinal, aquela que a imagina não apenas como uma não-mulher, mas também como fundamentalmente não britânica (a xenofobia europeia frequentemente utilizou o anti-“americanismo” como uma cobertura mais aceitável para sentimentos mais gerais sobre estrangeiros). Assim, ouço fortes ecos, no TERFismo, de dois séculos de participação feminista “orgulhosamente anglo-saxã” em empreendimentos coloniais eugenistas para “limpar” gêneros considerados confusos (e a prostituição) em colônias como a Índia britânica, onde havia populações significativas de indígenas não cisgênero.8 Em resumo, a maior razão para a transfobia do feminismo britânico é o Império. Eu já sabia de antemão que ridicularizar o antirracismo — ou ao menos imaginá-lo como necessário apenas para os americanos — é o esporte oficial do establishment intelectual britânico. Se você é inglês ou, como eu, meio-inglês, é provável que tenha sido criado, ao menos em parte, sob a ideia da Inglaterra média sobre seu próprio caráter nacional como cético, justo, racional, ascético, dedicado a desmistificar, e, acima de tudo, responsável pela abolição do tráfico de escravos. Naturalmente, antecipei a possibilidade de indignação por parte das pessoas sobre as quais escrevi. Ainda assim, foi um choque quando TERFs furiosas me disseram que “as mulheres não estavam realmente envolvidas naquela coisa toda de império”.9

Sarah Ditum, colunista do Sunday Times, ridicularizou minha ideia de que mulheres britânicas poderiam aprender algo com feministas indígenas.10 “De quem diabos ela está falando?”, tuitou, fingindo não ter ideia do que significa indigeneidade em relação ao império. “Dos celtas? Dos anglo-saxões?” Da mesma forma, Kathleen Stock OBE, acadêmica “crítica de gênero”, afirmou nunca ter ouvido falar de feminismo nativo em um contexto do Reino Unido. Stock especulou que, por indígena, eu talvez me referisse a germânicos autóctones, como a mística do século XII Hildegard von Bingen.11 (Na verdade, eu me referia, por exemplo, a feministas quenianas, indianas ou do Sri Lanka.12) Até eu me senti surpresa com o paroquialismo e a xenofobia da recepção que tive por parte daquelas sobre quem escrevi. Para as TERFs que atacaram meu artigo, não apenas o ativismo trans mina o feminismo (em sentido amplo), mas a crítica feminista, vinda da esquerda do feminismo é antifeminismo. Ela silencia mulheres, ou pelo menos é isso que as mulheres silenciadas em questão dizem ao mundo, dia sim, dia não, em programas de entrevista – ou nas páginas do The Guardian e (desde cerca de 2021) do The New York Times.13

O grito de censura distrai do que é, na realidade, simplesmente uma recusa em se engajar com lições indesejadas. Evidentemente, não é necessariamente “anti-mulher” investigar como feministas europeias atuaram na governança colonial — por exemplo, na vigilância de gênero por meio da educação eugenista, ou em políticas de higiene sexual e trabalho missionário. Trata-se de um processo feminista vital. Mas, diante da alergia cultural do Ocidente a esse tipo de autoconhecimento, sobre o envolvimento das mulheres no Império, dezenas de historiadoras tiveram de criar praticamente um campo acadêmico inteiro. Pesquisadoras como Anne McClintock, Saba Mahmood, Chandra Mohanty, Antoinette Burton e Vron Ware têm investigado meticulosamente, afirmado e reafirmado esses fatos aparentemente indigeríveis.14 O veredito já está dado. Senhoras de classe média e alta (especialmente) participaram, de forma feminista, da dominação racial em escala planetária. Só encarando essas verdades o feminismo pode tornar-se responsável perante si mesmo, transformar-se, dividir-se conforme necessário e prosperar. Ainda assim, nas mentes obstinadamente defensivas de intelectuais públicos consagrados do Ocidente, “tesouros nacionais”, comentaristas e formuladores de currículo, trazer esse assunto à tona é visto como ingratidão vil, hipocrisia flagrante, mau gosto e uma capitulação desonrosa diante da suposta tirania jovem woke-decolonial de hoje.

Eu me incluo entre as aliadas declaradas desses supostos insurgentes fantasmáticos, es jovens que lutam por sua autonomia corporal, aquelus que as TERFs chamam de “valentões de cabelo azul”, como se tivessem poder para oprimir seus educadores. Dito isso, não faz muito tempo, eu também poderia ter reagido violentamente se achasse que alguém estava dizendo que o próprio feminismo é ruim ou contrarrevolucionário. Um esquerdista me disse, em um elevador em 2012, que o feminismo era um empreendimento burguês — quase o empurrei. Entendo profundamente o impulso de atacar críticas ao feminismo. Sei que pode ser perturbador descobrir que feminismos já foram eugenistas, coloniais, letais para modos de vida indígenas, explicitamente antinegros, conscientemente perigosos para trabalhadoras do sexo, violentos com pessoas queer e femininas e até, por mais estranho que pareça, misóginos e patriarcais. Pode ser difícil compreender o papel do feminismo ocidental na lógica contrarrevolucionária da cisgeneridade [cisness], uma noção moderna que prejudicou todas as mulheres ao nos dividir e hierarquizar em relação ao potencial materno, definido de forma extremamente estreita. A tentação é forte de responder imediatamente: “Ok, mas feministas claramente não são as principais culpadas aqui. E o papel muito maior dos antifeministas?” No entanto, as preocupações legítimas contidas nessas objeções ainda assim não justificam evitar institucionalmente o tema. Se essas opressoras são um fio tão pequeno na história humana, qual é o problema de investigar a fundo sua opressão?

As mulheres são horríveis, com bastante frequência. Feministas, inclusive, fazem parte do problema. É disso que trata este livro, porque acredito que não temos escolha a não ser nomear feminismos inimigos, se quisermos construir um mundo abundante e habitável chamando esse projeto de feminismo. Precisamos abandonar tanto o conforto da autoflagelação quanto o da defensiva.

A propósito: estou ciente de que, quando, há pouco, contei a você a história da minha defesa apaixonada da Rainha da Noite, deixei implícito que sou a escritora que sou hoje porque nunca recuei. Essa história seria mais ou menos assim: ao contrário do príncipe Tamino e da princesa Pamina de Mozart, eu nunca transferi minha lealdade para longe do círculo “irracional”, sombrio e indisciplinado de mulheres, nunca me submeti ao templo patriarcal da razão. Isso me daria o prazer de narrar minha biografia como uma longa rebelião de desprezo pelos homens, um convívio ininterrupto com a irmandade das velhas sábias no ermo. Eu adoraria contar essa história a mim mesma. Imagino que seja o tipo de história que Kathleen Stock conta a si mesma. Mas, na verdade, a campanha do meu pai contra a rainha da noite funcionou.

Em nosso lar nuclear de classe média, o pai transformava a mãe em bode expiatório, e todes nós nos juntávamos contra ela: uma estratégia de certo modo racional, já que, como escreve a ativista antipsiquiatria e feminista radical Bonnie Burstow, “identificar-se com a mãe significa trabalho árduo e falta de poder”.

Frequentemente, pai e filha olham para a mãe (mulher) de cima, juntes. Trocam olhares cúmplices quando ela não entende algo. Concordam que ela não é tão inteligente quanto elus, que não consegue raciocinar como eleu. Essa cumplicidade não salva a filha do destino da mãe.15

Até o início dos meus vinte anos, entrei e saí do papel de “filhinha do papai”, ora combativa e fugitiva, ora cooptada e traiçoeiramente fluente no chauvinismo sexista. A femefobia — a desvalorização de uma feminilidade elaborada ou autoconsciente — era uma estratégia que eu às vezes usava para agradar meu genitor preferido (na verdade, minha mãe também me deu esse modelo). E, se depois eu me sentia suja ou dissociada, mudava abruptamente de rumo, “assumindo” meu gênero designado e lutando com unhas e dentes em defesa da Mulher em geral e das mulheres em toda parte. Meu pai não incentivava a empatia pela depressão da minha mãe. Leitora, minha cumplicidade com ele não me salvou do destino dela. A maneira como hoje consigo escapar desse destino tem a ver com as artes coletivas de um lar queer não diádico e com uma rede local de cuidado.

Anunciar-se como não sendo como as outras garotas expressa uma esperança e até um desejo malformado de liberdade. Ao participar do menosprezo do próprio grupo, aposta-se na chance de ser vista como exceção e, assim, poder fazer parte da humanidade. Mary Wollstonecraft tentou isso, assim como as ex-sufragistas que inventaram o policiamento feminino, e também a radical antipornografia Robin Morgan. Como veremos, isso não funciona de forma confiável e, muitas vezes, as próprias mulheres sabem que não funcionará. Mas, por outro lado, o movimento oposto também não resolve. Sim — a heroização também é uma armadilha. Minha mãe não obterá justiça sendo idealizada e transformada na boazinha, assim como a Rainha da Noite não obteria. (Encaremos a realidade: quão bom pode ser qualquer membro da realeza, afinal?) É possível não idealizar uma esposa abusada e ainda assim imaginar solidariedade com ela. Na verdade, a solidariedade exige que não idealizemos. Pense na filha no centro da disputa de custódia em A Flauta Mágica — ela nunca é consultada sobre suas opiniões, nem precisaríamos de sua inocência para apoiá-la. Talvez feministas devam tentar evitar heróis. Sem garotas no topo (girlbosses), sem heroínas, sem mestres.16

Ainda assim, é tão natural ficar na defensiva. Veja, a Rainha da Noite canta a ária mais difícil. Ela é, queremos dizer, uma verdadeira rainha. Eu nem tinha idade para ir à escola quando aprendi esse roteiro. E, embora minha iniciação tenha sido um confronto pré-escolar com uma explosão literalmente patriarcal contra uma figura “feminista” de uma fita VHS alemã — um caso particularmente extremo —, pergunto-me quantas outras feministas nasceram mais ou menos assim. Quantas de nós tivemos nosso feminismo liberal despertado, cedo na vida, por um choque com uma narrativa matrofóbica (anti-mãe) ou femefóbica que falhou de modo não intencional, produzindo afinidades “erradas”, lealdades pelas quais fomos punidas de maneira inábil e contraproducente?

Pergunto-me, acima de tudo, se esse hábito de pensamento — de teimosamente transformar vilãs em heroínas — realmente nos serve. Pense na enorme quantidade de diários, posts de blog e redações escolares ou universitárias no Ocidente (talvez você tenha escrito alguns? Eu escrevi) dedicados a redimir e depois exaltar figuras como jezebéis, loucas, madrastas perversas, enfermeiras malignas, assassinas e velhas sádicas — personagens como Pandora, Medusa, Medeia, Baba Yaga, Lilith, Lady Macbeth, Bertha Mason, Miss Havisham, Annie Wilkes, Cruella de Vil, ou mesmo Eva. Escolha qualquer uma: de “Úrsula, a bruxa do mar, não fez nada de errado” a “Aileen Wuornos para presidente”, provavelmente já experimentei isso em texto ou em conversa. Mas e se toda a lógica da redenção for uma armadilha? Até onde ela nos leva — e onde termina? Não faltam artigos argumentando que Condoleezza Rice, Kamala Harris ou Priti Patel são exemplos inspiradores de superação da misoginia racializada, mesmo quando exercem grandes aparelhos de violência estatal racista.

Demorei, mas aos poucos comecei a compreender os limites do feminismo de redenção de vilãs. Qualquer ideologia baseada na ideia de que mulheres são ou “as boas” ou “as vítimas” não teria, por definição, nada a oferecer à minha mãe, ao mesmo tempo furiosa e suicida. Em 2016, durante as eleições nos EUA, perguntei a mim mesma por que, aparentemente, todos estavam equacionando feminismo com “amar mulheres”. Claramente, sentimentos “pró-mulheres” não estavam correlacionados com resultados pró-todas as mulheres, já que estavam presentes em tudo, desde exaltações ao perfilamento racial até a defesa do parto forçado (naquele ano, as “tradwives” já estavam ganhando força). Lembra quando Ivana Trump disse que seu ex-marido “ama as mulheres” — e Ivanka, a filha deles, ecoou dizendo que Donald é um “feminista”? Essas histórias ficaram na minha memória porque meu pai, assumidamente liberal de esquerda, adotava um tom semelhante sempre que eu o acusava de antifeminismo. “Antifeminista?!”, exclamava. “Mas eu amo as mulheres. Mulheres são muito mais legais que homens.” Pode até ser, mas nunca me ocorreu perguntar qual era, então, o sexo ou a espécie da pessoa nada “legal” com quem ele era casado.

Diz-se que “compreender tudo é perdoar tudo”. Mas, se isso for verdade, então um compromisso com a “impureza” na política (um compromisso que considero central para o antifascismo) deve caminhar junto com a coragem de traçar linhas e lutar contra pessoas, se necessário. Em outras palavras, feministas que, como eu, são antifascistas comprometidas — ou antifascistas que também são feministas, como devem ser — precisam saber a diferença entre perdoar inimigos e desistir de lutar contra eles. Isso precisa ser absolutamente claro. É uma questão de aprender a se opor com mais confiança a pessoas que compreendemos: uma policial continua sendo minha inimiga mesmo quando é minha vizinha. Podemos sentir compaixão por mães do QAnon e ainda assim desmantelar seus arsenais. Podemos perdoar uma feminista pró-vida e ainda assim destruir o judiciário que impõe o parto forçado.

Por séculos, “as mulheres não são o problema” tem sido uma afirmação amplamente publicável, tanto por feministas quanto por antifeministas. Por outro lado, muitas de nós, na esquerda radical, nos alegramos com o fato de que tantas de nós somos um problema para a sobrevivência do estado atual das coisas. Sonhamos, na verdade, em ser problemas maiores — muito maiores. À medida que expandimos nosso desejo por revolução, espero que possamos começar a rejeitar panteões e, em vez disso, praticar lembrar e admirar camaradas falhas, de quem cuidamos, em parte, ao criticá-las. Minhas referências inclui Pat Parker, Shulamith Firestone, Mario Mieli, Donna Haraway e Emma Goldman, todas figuras que defendo com veemência, mesmo discordando delas em muitos aspectos. A heroização é um jogo perigoso, até regressivo. Mas é tão prazeroso! É difícil abrir mão disso.

Por ora, o que sei é que, se eu pudesse voltar no tempo, como Jenny Holzer, e falar com minha versão pequena, batendo os punhos naquela parede, eu diria:

Ei, pequena Saffoo. Não se preocupe por gostar da Rainha da Noite, a vilã. Não se preocupe por não gostar do rei-sol. Sinceramente? Os dois fazem parte da mesma monarquia, e ela também usa os filhos como peões. Um dia, quase certamente precisaremos lutar contra ambos — talvez até abolir a própria diferença entre mamães e papais. Mas sentir alegria com algo não significa que precisamos transformar isso em um princípio político. No mundo real não existem “boazinhas” e “vilãs”. É mais algo como: camaradas e inimigos. Você está, neste momento, em território inimigo! A família nuclear é uma máquina de injustiça. Então, continue cantando. E depois, saia daí e encontre seus camaradas.

Todos nós merecemos a liberdade e a segurança para sermos toles [foolish]. Gosto muito da ilustração de 1909 da carta “zero” do tarô — o “Louco”, que vem antes de todas as outras cartas — por esse motivo, com sua figura despreocupada e ingênua colhendo flores alegremente com seu pequeno cachorro à beira de um penhasco. É uma carta que me fala do desenho não universal da infância: do fato de que nossa sociedade tenta proteger apenas algumas. não todas. crianças inocentes de crescer por meio de trauma e violência, “do jeito difícil”. Toda criança deveria ter acesso ao que hoje é a infância branca de classe alta. Ou seja, o direito de não pagar pela ignorância com a própria vida e de ter espaço para cair de penhascos com segurança.

No entanto, há outro sentido, muito diferente, para a palavra “tola”. É um que quase usei no título deste livro, que em certo momento se chamaria O Feminismo das Tolas. Esse outro uso, porém, é infinitamente mais pesado, ainda que soe, para não iniciades, como se tratasse apenas de ignorância. (Foi por isso que acabei recorrendo à ideia de “inimigos”.) A tolice, na formulação “das tolas”, é uma tolice inimiga: não há aqui nenhuma abertura radical, nenhuma leveza despreocupada. Há, em vez disso, uma certeza confortável, endurecida, voluntária, sobre como as coisas são, e uma falta de curiosidade deliberada diante do impossível. Um tipo de tolo pode se tornar o outro? Claro — em uma sociedade anti-infância, empenhada em transformar jovens “improdutives” em adultes produtives o mais rápido possível, isso acontece o tempo todo. Já vi toles do tipo utópico de repente decidirem “encarar a realidade” e “amadurecer” adotando rapidamente o pseudo-realismo do outro tipo. É o que acontece, por exemplo, quando você decide, como feminista iniciante, que todos os fins da Rainha da Noite justificam os meios.

Há cerca de um século e meio, em círculos de esquerda de língua alemã, surgiu um aforismo popular, geralmente atribuído a August Bebel, autor mundialmente famoso de Mulher e Socialismo.17 A frase era: “Der Antisemitismus ist der Sozialismus der dummen Kerle” — ou seja, o antissemitismo é o socialismo dos tolos. A expressão rapidamente se tornou viral, pois nomeava com precisão uma forma perniciosa de populismo xenófobo anti-bancos, que explora a associação fóbica entre a figura do “Judeu” e o capital financeiro, de um lado, e o comunismo, de outro. No “socialismo dos tolos”, capitalismo é igual a finança, que é igual aos Judeus — mas, de algum modo, os Judeus também estariam tentando minar a nação, derrubar a sociedade de classes e instaurar uma ordem marxista global. Os supostos “socialistas” em questão diziam amar a classe trabalhadora, mas o que amavam era, na verdade, uma ideia de pureza artesanal e vida “limpa”, muito distante dos moradores de cortiços, trabalhadores da indústria têxtil e massas exploradas do proletariado real (também em grande parte falante de iídiche).

Ainda assim, como discute a escritora Naomi Klein em seu estudo sobre o conspiracionismo, Doppelganger: A Trip into the Mirror World (Doppelganger: Uma viagem através do Mundo-Espelho), essas narrativas autocontraditórias são fáceis de adotar, mesmo para pessoas supostamente bem-intencionadas, nas condições atuais de expropriação e alienação generalizadas. Isso não significa que sejam apenas um pouco equivocadas. Não: o “socialismo dos tolos” é o caminho real para o nacional-socialismo — ou seja, o fascismo. O que distingue essa expressão é que ela destaca uma tragédia: o impulso original de alguém que acaba nesse campo pode, em algum momento, ter sido anticapitalista.

Alguém pode ter olhado ao redor e dito a si mesma que há algo profundamente errado na sociedade de mercado, algo que a democracia liberal não consegue resolver. E isso é muito verdade. Mas então, em vez de avançar rumo a uma compreensão do capital como um sistema impessoal de relações sociais (algo que pode, de fato, ser vertiginoso), essa pessoa trava. Com a forma-valor grande demais e chefes individuais ou proprietários pequenos demais, ela não encontra um alvo adequado para sua raiva. A ambiguidade torna-se insuportável. Então ela recorre à crença, ainda com aparência subversiva (mas fundamentalmente reconfortante), de que apenas algumas manifestações modernas do capitalismo são o problema: a especulação, a dívida, a usura, o tráfico humano, a “ganância”.

Talvez, pensa ela, esses males tenham uma fonte comum em um parasita social que se alimenta do que, de outro modo, seria um estado saudável da natureza econômica, caracterizado por trabalho honesto e comércio justo. Talvez, em vez da banal violência planetária que é a relação de classe, o cerne da questão seja mais espetacular e mais fácil de visualizar: uma raça de alienígenas superpoderosos, embora apenas indiretamente discerníveis; uma quinta coluna covarde caminhando entre nós, nos minando, nos sugando, lucrando às nossas custas… Às vezes se esquece que os fascistas se entendem como uma revolta emancipatória antielite contra a política. Não se engane: o ponto aqui não é que o esquerdismo esteja de algum modo mais próximo do fascismo do que o liberalismo, mas que um impulso radical passageiro ou uma inclinação astuta para análises sistêmicas pode, em alguns casos, escorregar, despencar e se transformar em uma política inimiga.

Podemos compreender vários momentos da filosofia política feminista ao longo dos últimos dois séculos em termos semelhantes. Assim como o “socialismo dos tolos”, os feminismos que tenho em mente geralmente começaram com um impulso radical. Em cada caso, mulheres disseram a si mesmas: há algo profundamente errado na vida marcada pelo gênero, algo que o humanismo como o conhecemos não pode resolver. (Verdade.) Em vez de persistirem, porém, rumo a uma compreensão do gênero em si como algo artificial até a raiz — o que certamente pode ser vertiginoso — elas recuam. Divisões como “produtivo-reprodutivo” e “público-privado” parecem abstratas demais, enquanto locais de trabalho específicos (seja o lar onde ocorre o cuidado não remunerado, a esfera doméstica assalariada, o call center ou a cozinha comercial) parecem excessivamente particulares. Seria mais fácil poder pintar um retrato do nosso algoz! Então, talvez possamos todos concordar que algumas manifestações do gênero são ruins: prostituição, feminilidade, transfeminilidade, gestação por contrato, patriarcado oriental, violência por parceiro íntimo, barreiras de acesso à educação baseadas no sexo, a diferença salarial, o estigma em torno do aborto, ou mesmo uma suposta falta de estigma sobre o aborto. Qualquer uma dessas coisas pode certamente ser atacada, para começar, em nome de um mundo igualitário entre os sexos? De todo modo, é mais fácil do que tentar entender o que implicaria desfazer o modo de produção que sustenta a lógica do gênero. É mais fácil visualizar o problema como um teto de vidro, uma disparidade salarial, um assediador no escritório, um cafetão, um estuprador estrangeiro, um médico homem, a embriaguez do marido, “o” pênis ou a “ideologia de gênero”. Podemos destruir essas coisas — certo? — legislando contra afrontas à maternidade e à infância feminina; contra a pornografia, o véu, o trabalho sexual, a má conduta sexual, a intemperança, a discriminação no trabalho ou a autodeterminação trans.

Eu gostaria de ter tido um conceito como “o feminismo das tolas” vinte anos atrás. Ninguém jamais me explicou, quando eu estava começando como feminista no fim da adolescência, que certos feminismos causam ativamente uma grande quantidade de mal. Como resultado, passei mais de uma década equiparando feminismo a “boa” política em um mundo que refletia qualquer coisa menos isso. Eu simplesmente reprimi meu desconforto. Assim como todas as outras feministas ao meu redor que apostavam nessa estratégia, sempre que eu encontrava reacionáries se autodenominando feministas (algo que acontecia com uma frequência desconcertante), eu es definia despreocupadamente como não feministas. Isso não é feminismo de verdade, eu dizia. Não importa o que pensem, essas pessoas não são feministas. Para contar como tal, um feminismo teria que preencher algum tipo de critério relacionado ao antirracismo e ao anticapitalismo. Essa abordagem purgativa é compreensivelmente muito popular. Até onde sei, praticamente todas minhas amizades fazem isso às vezes, e é fácil entender por quê.

Por um lado, esclarecer que “essas supostas feministas não falam por mim” é uma forma valiosa de solidariedade com as vítimas mais atingidas do feminismo imperial ou do “girlbossismo”. Quando dizemos “isso não é feminismo”, estamos informando às agentes pró-mulher prejudiciais que elas não são do nosso grupo, ao mesmo tempo em que mostramos aos seus alvos que estamos do lado deles. Por exemplo, cruzadas civilizatórias contra o hijab não são feministas, afirmamos, erguendo nossas barricadas em torno do termo. Humanitárias que odeiam trabalhadoras do sexo não são feministas. Se você é uma promotora racista de casos de estupro como a chefe de crimes sexuais de Nova York em 1989, Linda Fairstein, você não é uma feminista de verdade!18 Se você envergonha práticas kink, não está fazendo feminismo! Feminismo “pró-vida”? Não existe! Ou, como algumes brincalhões propuseram, TERFs nem sequer são feministas, são FARTs: Transfóbicas Radicais que se Apropriam do Feminismo. No momento da escrita, uma busca na internet pelo termo “feminismo de verdade” retorna pouco menos de cem mil resultados.19

Nosso desconforto aqui é palpável. Será que sequer sabemos quando o “feminismo de verdade” começou? Acontece que a própria palavra provavelmente foi cunhada alguns anos após a publicação de A Reivindicação dos Direitos da Mulher (1792), de Mary Wollstonecraft — um tratado precedido pela Declaração dos Direitos da Mulher (1791), da revolucionária francesa Olympe de Gouges. Enquanto isso, boas antologias de “feminismo” hoje tendem a provincializar completamente o cânone ocidental, começando em qualquer ponto dos últimos quatro mil anos, talvez com provérbios Cheyenne sem data ou narrativas Apache, ou uma invocação da sacerdotisa suméria Enheduanna, versos de Safo, trechos da Bíblia Hebraica ou poemas do Therigatha (uma coletânea escrita por monjas budistas).20 Mas o “feminismo” originalmente autodenominado, como gosto de lembrar às pessoas, foi provavelmente o abolicionismo familiar do início do século XIX do socialista utópico francês e defensor da libertação sexual Charles Fourier.21 Enquanto as histórias anglófonas costumam começar com a defesa da maternidade burguesa por Wollstonecraft, poderíamos facilmente começar com Fourier, que defendia o oposto — nomeadamente, a abolição do lar nuclear privado. Como pode um único movimento ter dois “parentes” que querem coisas tão opostas? A desunião das origens do feminismo ocidental, colonial, é uma fonte de grande ansiedade subliminar para as feministas de hoje. E não é de admirar! No contexto de uma nova consciência imposta à nossa memória coletiva pelo movimento Black Lives Matter, várias figuras do panteão autorizado do sufrágio feminino passaram recentemente a ser vistas sob uma luz pouco favorável, como supremacistas brancas comprometidas.22

Relatos tradicionais sobre as precursoras do movimento de mulheres ocidental estão entalados em nossa garganta coletiva. Muitas de nós aprendemos como aquelas corajosas intelectuais saíram da esfera privada e disseram: “Não! nós NÃO seremos escravas!”, ao mesmo tempo em que, supostamente, apoiavam as lutas de outras pessoas para quebrar correntes reais de escravidão em seus tornozelos. É uma história que a maioria de nós conhece — que A Reivindicação foi o movimento inicial do feminismo burguês-revolucionário em inglês —, mas ainda vale lembrar sua proposição central, escrita durante a Revolução Haitiana: que mulheres ocidentais domesticadas estão em situação comparável à de africanes escravizades trabalhando no Caribe e, portanto, merecem emancipação social (como elus, ou possivelmente até mais). A oposição de Wollstonecraft à escravidão (real) era sincera, sem dúvida, embora não significativamente antirracista. Seu argumento geral era que se deve se opor à falta de acesso à educação das damas europeias porque já se é contrário ao sistema colonial de trabalho escravo.23 Temos essa estratégia conceitual a agradecer por dar início aos últimos 233 anos de progresso de gênero liberal-democrático.

O padrão de uma mulheridade burguesa organizada que se inspira na luta anticolonial e depois busca se sobrepor a ela persiste até hoje. Dito isso, o massivo aumento nas discussões sobre feminismo branco nos últimos anos prova que muitas feministas no Ocidente estão refletindo sobre o legado da analogia com a escravidão. Um crescimento massivo nos debates antifeminismo branco indica alguma disposição real, por parte de “boas moças brancas”, de desaprender o feminismo imperial.24 Muitas buscaram ferramentas para ajudá-las a identificar o chauvinismo colonial implícito e a antinegritude incorporados em suas redes de autoempoderamento. Especialmente a partir de 2016, milhares acorreram a palestras, encontros e oficinas sobre feminismo decolonial conduzidas por feministas negras como Gail Lewis e Reni Eddo-Lodge no Reino Unido, enquanto nos EUA o “hood feminism” (Mikki Kendall) e o “feminismo abolicionista” (Angela Davis e outras) conquistam novos adeptos todos os dias.25 Naturalmente, a indústria editorial refletiu essa virada. Vários livros úteis sobre a branquitude feminista apareceram em 2021: The Trouble with White Women, de Kyla Schuller; Nice White Ladies, de Jessie Daniels; White Tears/Brown Scars, de Ruby Hamad; e Against White Feminism (Contra o Feminismo Branco), de Rafia Zakaria.26 Até mesmo a ex-editora da Vogue, Koa Beck, publicou naquele ano um livro chamado White Feminism: From the Suffragettes to Influencers and Who They Leave Behind.

Na verdade, “o problema da política feminista branca não é aquilo que ela deixa de abordar nem quem ela exclui”, escreve Schuller, corrigindo gentilmente o enquadramento de Beck. “O feminismo branco é uma forma ativa de dano, não apenas um subproduto do autoabsorvimento.” Portanto, “ampliar a tenda do feminismo branco não transformará os materiais de que ele é feito.”27 (Não surpreendentemente,e uma onda contrarrevolucionária de consultors cobrando 30 mil dólares por hora, como Robin DiAngelo, tentaram transformar esses materiais repentinamente autoconscientes e culpados em dinheiro, cooptando a crítica da branquitude feminista em uma prática de autocensura branca.)28 Não se engane: a branquitude não pode ser separada de nenhum dos feminismos inimigos que procuro iluminar nas páginas seguintes: o feminismo anti-Islã, o feminismo de chefes [bosses], o feminismo da gestação forçada, o feminismo da cisnormatividade e outros. Dá-me esperança que tantas pessoas estejam agora enfrentando a coimbricação entre gênero e racialização. Minha preocupação, seguindo Schuller, é que parece mais fácil para a cultura falar de “feminismo branco” como uma simples questão de “coisas feitas por feministas que são brancas” do que lidar com a noção de um feminismo que tem a branquitude incrustada em seu núcleo.

“Feminismo branco” é um conceito valioso. Em algumas mãos, porém, ele carrega uma ambiguidade que o capitalismo já explora. É possível perder a branquitude sem destruir fatalmente o feminismo? E se (como algumas pessoas parecem secretamente esperar) não houver maneira de deixar de ser branco? Para aqueles que preferem meditar eternamente sobre seus privilégios em vez de escolher um lado e se comprometer com a “traição de raça” (isto é, o que o abolicionista John Brown chamou de “lealdade à humanidade”), falar demais de feminismo branco pode se tornar desmobilizador e indulgente. Ao mesmo tempo, algumas manifestações de etnonacionalismo, pró-branquitude, dominação de classe e colonialidade em forma feminista não são identificadas com frequência suficiente como “mau” feminismo no cenário liberal global, por causa das características étnicas de seus principais agentes (pense no feminismo japonês excludente de pessoas trans, ou no femonacionalismo hindu). Como observou Gloria Anzaldúa há muito tempo, alguns brancos “possuem uma consciência de mulheres de cor, assim como algumas mulheres de cor carregam uma consciência branca”.29

Feministas cometeram erros racistas, e seus feminismos refletiram erros de julgamento — isso, pelo menos, nós fomos obrigades a reconhecer, mesmo contra nossa vontade. Mas a cultura ainda mostra relutância em contemplar a extensão das conexões teóricas mais profundas de alguns feminismos com o fascismo. O que precisamos agora é de um bestiário de feminismos inimigos, para nos sacudir e nos fazer compreender que o grito de uma mulher por poder feminino às vezes faz parte integrante do programa do opressor. Mesmo que soframos perdas no curto prazo, como feministas só temos a ganhar, no fim das contas, ao aceitar que certas linhas e tradições queridas do feminismo não eram apenas incidentalmente misóginas, mas substantivamente assim; que suas definições centrais eram burguesas, de forma irremediável; que seu racismo era inseparável. Quais são nossas outras opções? Será tentar a tarefa absurda de “dialogar” com pessoas cujos objetivos são opostos aos nossos — descolonizar aquilo que é claramente uma forma de colonialismo? Ou será desmantelar a casa do feminismo, essa fortaleza maltratada e amada onde tantas de nós não vivemos bem, e ousar nomear alguns feminismos como inimigos?

Contra os gritos ressentidos de certos setores de que apenas o patriarcado se beneficia quando feministas criticam outras feministas, afirmo com Anzaldúa que linhas de afinidade, não de identidade, devem ser traçadas. Alguns feminismos são obstáculos à liberdade de gênero, e perguntar “de que lado você está?” é o nível mais elementar da física política. “O lado das mulheres” não existe. Nunca existiu.

Sejamos corajosas e engulamos nosso remédio amargo. Feministas de todo o espectro político empenharam-se em definir suas tropas como castas e imaculadas pelo desejo (especialmente o desejo interracial); além de maternais, isto é, puras, heterossexuais, afastadas do mundo do trabalho produtivo; e “naturais”, ou seja, não artificiais, não “femme”, sem intervenções cirúrgicas ou químicas. Os feminismos negros têm um histórico melhor, mas, é claro, algumas feministas negras também foram profundamente capacitistas nesse sentido, ou estigmatizaram o trabalho sexual, ou foram anticomunistas. No geral, muitos feminismos imaginaram seu sujeito central como trabalhadora, sem deficiência, saudável e livre de próteses — sendo complementos implícitos de uma mulheridade que é geradora de vida (ou ao menos pró-família), economicamente independente (ou aspirante a isso), não violenta (ou ao menos obediente à lei) e que “se respeita” (não modificadora do corpo ou submissa).

Tudo isso era feminismo, não feminismo libertador, mas feminismo no sentido de que contestava uma restrição patriarcal imposta a um certo grupo de mulheres, por menor que fosse. Aristofeministas vitoriosas passam então a coengendrar e impor restrições patriarcais ou eugênicas a outras; chegam até a esperar apoio feminista generalizado para suas ascensões. Isso é “pior” do que uma hipotética dominação alternativa apenas masculina? Não, mas tampouco essa desigualdade sob pretexto de igualdade de oportunidades, essa equidade contrarrevolucionária, é, nem remotamente, aquilo pelo que meu lado luta. Precisamos ser criterioses em relação a qualquer feminismo específico justamente porque“Alerta: mulheres não estavam realmente envolvidas naquela coisa toda de Império.”
—Twitter.

o feminismo é tão amplo que contém, em si mesmo, seus próprios inimigos mortais. Digo isso (como uma relutante estraga-prazeres feminista) porque pertenço ao feminismo. É graças a e apesar de pessoas como Wollstonecraft — ambos! — que o feminismo pode ser uma força de reação ao mesmo tempo em que é uma força insurgente que materialmente cria o direito à cidade, enchendo as ruas com coreografias e cantos que denunciam a polícia, os tribunais, os pais, os patrões e o Estado.30

O feminismo, em suas melhores expressões, é uma prisão em chamas: uma insistência de que a vida pode valer a pena ser vivida e de que o prazer de cada pessoa importa. É também o conjunto de práticas que tornam a vida vivível, arrancando o cuidado do mercado;31 distribuindo livremente pão, rosas e hormônios;32 dessegregando as gerações;33 libertando mães da detenção;34 retirando o poder de estupradores em redes familiares, igrejas e centros sociais;35 e expropriando campos de golfe para abrir espaços de encontro erótico (não necessariamente sexual — mas também sexual!).36 O feminismo às vezes lampeja um caminho ainda não iluminado rumo a um mundo sem branquitude ou colonizadores.37 Nesses momentos, ele é uma insurreição que interrompe o policiamento das famílias, a gestação forçada e todas as outras injustiças reprodutivas.38

Para muites de nós, o feminismo designa a tarefa de abolir todas as escassezes organizadas, da família nuclear privada à nação.39 É a desprivatização do amor, por meio da insurgência de mães de todos os gêneros contra a instituição patriarcal da maternidade; o desacoplamento da sobrevivência do salário; a destruição dos mercados; a insistência ecológica na responsabilidade entre espécies; a descarbonização de todas as megalópoles; e a comunização de infraestruturas em escala continental: cursos d’água, bancos de sementes e bibliotecas.40 É uma greve proletária local contra o trabalho (essa substância já sempre generificada e roubada que chamamos de trabalho alienado) e uma revolução planetária de valores que prioriza o cuidado em vez da acumulação. É também um nome perfeitamente adequado para o horizonte em que as inúmeras vítimas precárias, abjetas, sem salário, marginalizadas, consideradas “loucas”, encarceradas e de outras formas descartadas pelo trabalho são vingadas. Como movimento revolucionário, o feminismo abole o gênero enquanto diferença hierárquica, ao mesmo tempo em que recria os gêneros enquanto diferenças exuberantes, interessantes e prazerosas.41

O feminismo, em outras palavras, abre espaço para formulações autônomas de gênero enquanto a revolução não chega. Também conhecido, por alguns, como a revolta das femmes contra a cisgeneridade42, das trabalhadoras do sexo contra o trabalho, 43o feminismo é “mulherismo quântico negro” [black quantum womanism]44; comunismo junkie45; reparações multiespécies46; uma falha queer na matriz do dado.47 O feminismo é necessariamente central para qualquer antifascismo significativo. Mas isso não significa que ele seja sempre antifascista — nem mesmo não fascista. Não podemos simplesmente contar com isso. Em vez disso, nossa tarefa é conspirar por um mundo em que as mulheres, se essa palavra ainda existir, continuarão sendo horríveis e não horríveis, mas no qual o feminismo contrarrevolucionário tenha sido privado de sua capacidade de violência — e até mesmo o nosso feminismo seja, felizmente, obsoleto.

1 Tradução da introdução “Woman Are Not Horrible” do livro de Sophie Lewis entitulado Enemy Feminism: TERFs, policewomen & girlbosses against liberation (2025).

2 Doutoranda em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Contato: agnes.oliveira.costa1@gmail.com

3Este tuíte, já excluído, é citado por Njoki Ngumi aqui: twitter.com/njokingumi/status/1094427215733891072.

4Naomi Huffman, “Artist Jenny Holzer: ‘Women Are Not Horrible,’” Guardian, January 4, 2023.

5 Sophie Lewis, “How British Feminism Became Anti-Trans,” New York Times, February 7, 2019.

6 Para a perspectiva de direita sobre a viagem de Parker a Washington, D.C., ver “Terfs Take America”, por “Cockburn”, Spectator, 31 de janeiro de 2019.

7 Asa Seresin, “Lesbian Fascism on TERF Island,” February 11, 2021, personal website.

8Sobre isso, ver Ezra Horbury e Christine (Xine) Yao, “Empire and Eugenics: Trans Studies in the United Kingdom”, TSQ 7(3), 2020.

9A abordagem mais popular da história feminista “insistentemente nega sua relação com as histórias coloniais e repetidamente tenta apagar de vista sua cumplicidade com ideologias imperiais.” Tracey Boisseau, White Queen: May French-Sheldon and the Imperial Origins of American Feminist Identity, Indiana UP, 2004, p. 202.

107 de fevereiro de 2019, Twitter, @sarahditum: “Pergunta rápida… de quem diabos ela está falando? Dos celtas? Dos anglo-saxões?”

11Para um engajamento de boa-fé com Hildegard von Bingen como uma ancestral feminista, ver a meditação psicodélica de Huw Lemmey, coautoria com a própria Hildegard von Bingen, Alice Spawls e Bhanu Kapil: Unknown Language, Ignota, 2021.

12 A existência do grupo franco-argelino “Les Indigènes de la République” na França poderia ter fornecido uma pista aqui.

13 “Pesquisa da Mermaids sobre a cobertura de questões trans na imprensa”, Mermaids UK, 18 de novembro de 2019.

14 Alguns relatos importantes sobre o papel histórico dos feminismos como “serviçais do colonialismo” são: Saba Mahmood, Politics of Piety (Política da Devoção, Papeis Selvagens) Princeton University Press, 2013; Nima Naghibi, Rethinking Global Sisterhood, University of Minnesota Press, 2007; Janice Boddy, Civilizing Women, Princeton University Press, 2007; Lora Wildenthal, German Women for Empire, Duke University Press, 2001; Antoinette Burton, Burdens of History, University of North Carolina Press, 1994; Vron Ware, Beyond the Pale, Verso, 1992; Chandra Mohanty et al. (orgs.), Third World Women and the Politics of Feminism, Indiana University Press, 1991; e Anne McClintock, Imperial Leather (Couro Imperial, Editora Unicamp), Routledge, 1985.

15Bonnie Burstow, Radical Feminist Therapy, Sage, 1992, p. 12.

16 N.T. É difícil encontrar uma expressão em português para traduzir girlboss . O termo se popularizou em 2014, nos Estados Unidos, após a publicação do livro de memórias #GirlBoss da empresária Sophia Amoruso. A girlboss expressa um fenômeno cultural de culto ao empreendorismo, se referindo às mulheres que aspiram aos cargos de chefias, em especial no mundo corporativo e no setor das finanças. Suas narrativas mobilizam histórias de ascensão profissional e social. O culto neoliberal da girlboss, assim, é de defendido como uma forma de empoderamento feminino e de conquista de independência num mundo patriarcal. No Brasil, fenômenos semelhantes são sintetizados por expressões como “mulheres no topo” ou “mulheres no poder”. Nesse sentido, decidimos traduzir girlbosses por “garotas no topo”, na medida em que a mobilização da palavra girl atribui uma inocência estratégica à imagem da girlboss, ao mesmo tempo que a distancia da imagem da trabalhadora de outros tempos, vinculando-a ao “progresso”.

17 Bebel atribui o aforismo a Ferdinand Kronawetter em Der Antisemitismus, Harvard University, 1894, p. 21.

18 Sobre o papel da promotoria de Manhattan no caso dos Cinco do Central Park, conforme documentado em When They See Us (2019, dir. Ava DuVernay), ver Zillah Eisenstein, “Watching ‘When They See Us’, As a White Woman”, Monthly Review Online, 5 de junho de 2019.

19 Uma amostra: “White Feminism Isn’t Real Feminism”, Odyssey, 11 de agosto de 2015; “How to Tell If the Women’s March Is about Real Feminism”, Vox, 19 de janeiro de 2017; “Why Commodified Feminism Isn’t Real Feminism”, 3 de abril de 2018; “Extreme Feminism Is Not Real Feminism”, Florala, 8 de outubro de 2018; “Trans-exclusionary Feminism Isn’t True Feminism”, Queen’s Journal, 6 de março de 2020.

20 Ver Jessie Kindig (ed.), The Verso Book of Feminism, Verso, 2020.

21 Dominic Pettman, “Get Thee to a Phalanstery,” Public Domain Review, May 1, 2019.

22 Martha Jones, “How New York’s New Monument Whitewashes the Women’s Rights Movement,” Washington Post, March 22, 2019.

23 Ana Stevenson, The Woman as Slave in Nineteenth-Century American Social Movements,Palgrave, 2020.

24 Jessie Daniels, Nice White Ladies, Seal, 2021.

25 Mikki Kendall, Hood Feminism, Viking, 2020; Angela Y. Davis et al., Abolition. Feminism. Now (Abolicionismo. Feminismo. Já, Companhia das Letras). Haymarket, 2023.

26 Kyla Schuller, The Trouble with White Women, Bold Type, 2021; Daniels, Nice White Ladies, 2021; Ruby Hamad, White Tears/Brown Scars, Catapult, 2020; Rafia Zakaria, Against White Feminism (Contra o Feminismo Branco, Intrínseca), W. W. Norton, 2021

27 Schuller, The Trouble with White Women, p. 4.

28 Melissa Phruksachart, “The Literature of White Liberalism,” Boston Review, August 21, 2020.

29 Gloria Anzaldúa, This Bridge We Call Home, Routledge, 2002, p. 570.

30 O coletivo chileno LASTESIS criou Un violador en tu camino, um protesto artístico que faz referência ao slogan oficial da polícia dos Carabineros, “Um amigo no seu caminho”. Ver: “Chile’s ‘A Rapist in Your Path’ Chant Hits 200 Cities”, Al Jazeera, 20 de dezembro de 2019.

31 Em 1970, os Black Panthers e os Young Lords tomaram uma ala do Lincoln Hospital, em Nova York, estabelecendo o primeiro programa de desintoxicação de drogas no centro da epidemia de heroína da cidade. Ver: M. E. O’Brien, “Junkie Communism”, Commune, 15 de agosto de 2019.

32 Em 1911, a sufragista e reformadora trabalhista Helen Todd exigiu de forma célebre “pão, e também rosas” para as trabalhadoras de fábrica. Cem anos depois, transfeministas de esquerda, da Escócia ao Canadá, modificaram a frase: “Pão, rosas e hormônios, também!”

33 Feministas há muito contestam a segregação etária. Ver: NO! Against Adult Supremacy, Active Distribution, 2016.

34 Victoria Law, “#FreeBlackMamas paga fiança para mães negras saírem da prisão no Dia das Mães”, Waging Nonviolence, 11 de maio de 2019.

35 Aishah Simmons (org.), Love WITH Accountability, AK Press, 2019.

36 Lyn Corelle e jimmy cooper intervieram em uma luta de classes sobre terras públicas em Minneapolis, em 2021, distribuindo 100 placas de jardim — “Transformem o campo de golfe em uma floresta sexual pública!”. Ver: Lyn Corelle e jimmy cooper, Make the Golf Course a Public Sex Forest, Maitland Systems, 2023.

37 Sobre feminismo contra a branquitude: Tiffany King, The Black Shoals, Duke University Press, 2019; e Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, What Gender Is Motherhood?, Palgrave, 2015. Sobre libertação de gênero decolonial: Lou Cornum, “Desiring the Tribe”, Pinko, 15 de outubro de 2019; María Lugones, “Toward a Decolonial Feminism” (Rumo a um feminismo descolonial), Hypatia 25(4), 2010.

38 Sobre organização radical pela liberdade reprodutiva, ver Alex Barksdale, “Anarchist-Feminist Perspectives on Autonomous Reproductive and Trans Health”, Coils of the Serpent (11), 2023.

39 Ver Sophie Lewis, Abolish the Family, Verso, 2022; e M. E. O’Brien, Family Abolition, Pluto, 2023. 37–44.

40 Sobre o feminismo como desprivatização do cuidado: Kathi Weeks, “Abolition of the Family”, Feminist Theory, 2021; sobre sobrevivência desvinculada do salário: Morgane Merteuil, “Sex Work Against Work”, Viewpoint, 31 de outubro de 2015; sobre descolonização feminista: Françoise Vergès, A Decolonial Feminism (Um Feminismo Decolonial, UBU), Pluto, 2021; sobre descarbonização feminista: Alyssa Battistoni, Free Gifts (no prelo).

41 Kay Gabriel, “Gender as Accumulation Strategy”, Invert, 2020; e Joshua Clover e Juliana Spahr, “Gender Abolition and Ecotone War”, SAQ 115(2), 2016.

42 Emma Heaney (org.), Feminism against Cisness, Duke University Press, 2024.

43 Sobre comunismo de trabalhadoras do sexo anti-trabalho, ver femi babylon e Heather Berg, “Erotic Labor within and without Work”, SAQ 120, 2021; Heather Berg, Porn Work, University of North Carolina Press, 2021; e “Sex Workers against Work”, Other Weapons, 2019.

44 Rasheeda Phillips, “The Future(s) Are Black Quantum Womanist”, Schlosspost, 2 de julho de 2018.

45 O’Brien, “Junkie Communism”.

46 Sobre ecofeminismo abolicionista negro, ver Nylah Burton, “You Can’t Separate People from the Planet”, The Nation, 4 de março de 2022; Jennifer James, “Reproductive Justice and Abolition”, American Journal of Bioethics 24(2), 2024.

47 Legacy Russell, Glitch Feminism, Verso, 2020; Amber Husain, “Cyborgs Without Organs”, Radical Philosophy 209, 2020.

SOBRE O AUTOR

tocaia
11 de May de 2026