por Paul B. Preciado
Depois de um mês de janeiro repleto de acontecimentos, o tempo se desarticulou. Esta velocidade não é acidental, mas corresponde à metodologia política de um certo Nick Land. Itinerário de um cyberpunk tornado tecno-fascista que hoje inspira Vance e Trump.
I. A arte do cronista moderno, aquele que escreve à quente sobre a atualidade, tornou-se hoje impossível
Eu estava em vias de escrever um uma crônica sobre arquitetura e genocídio na “reconstrução” de Gaza quando Trump capturou Maduro e invadiu a Venezuela. Então, quando ainda sob o choque, pus-me a escrever sobre a Venezuela, Trump ameaçou invadir a Groenlândia, relegando Gaza e a Venezuela ao posto de tópicos ultrapassados. Seguiram-se ameaças contra o México, discussões mafiosas sobre a Colômbia, fanfarronadas nucleares contra o Irã…
Enquanto isso, a patrulha paramilitar ICE espalhava o terror em Minnesota; Elon Musk afirmava desejar abandonar o setor de carros elétricos para se concentrar na robótica e em seu Neuralink, prometendo o “fim das deficiências” com seu projeto de implantar próteses informáticas no cérebro humano; além disso, o telescópio Kepler Space K2 da Nasa trazia notícias de HD137010, um planeta habitável com possibilidade de vida orgânica localizado a “apenas” 146 anos-luz…
Pouco depois, mais de três milhões de páginas do relatório Epstein coroariam tudo, como uma ejaculação interminável de poder, linguagem, imagem e esperma. Foi assim que, após um mês de janeiro tão denso quanto um século, aproximamo-nos do ano 3000 como uma mariposa que se aproximasse da luz estelar de uma bomba atômica.
II. A atualidade avança mais rápido que o presente
A atualidade é tão tumultuosa e se desenrola tão rapidamente que o/a cronista humano/a (que se tornará bem cedo obsoleto ou até residual), com sua consciência humana, seu corpo humano e sua escrita humana literalmente não tem tempo de dar um sentido àquilo que se passa. A vertigem do/a cronista reflete o deslocamento de qualquer um/a diante do acontecimento: tornou-se impossível, da mesma maneira, a crônica de nossa própria vida.
A atualidade avança mais rápido que o presente, o tempo está desarticulado, de maneira que quem quer que escreva sobre o cotidiano ou fale daquilo que crê ser sua própria vida se vê transformado em uma espécie de historiador/a anacrônico/a, cujas palavras parecem tão ultrapassadas quanto aquelas de Tucídides. Essa velocidade exasperante, estranha à temporalidade social, não é puramente acidental, não é o resultado de uma acumulação de acontecimentos, mas corresponde a uma metodologia política proposta em meados dos anos 90 por Nick Land, um jovem inglês em um pequeno departamento de filosofia da universidade de Warwick.
Em 1993, Sadie Plant, Mark Fisher e Nick Land, um grupo de jovens doutorandos cujo gosto por literatura cyberpunk, internet, música jungle e ocultismo separava de seus colegas mais interessados em Proust, jornais, música clássica e humanismo fundaram um grupo chamado Cybernetic Culture Research Unit (CCRU), um clique de jovens camaradas dedicados, segundo suas prórprias palavras, a fazer com a filosofia o tipo de “sampling a toda velocidade” que a cultura do sound system jamaicano havia feito com a música eletrônica.
Se bem que inspirados por textos de esquerda radical, os três doutorandos, conhecidos como “deleuzeanos obscuros” em razão de sua leitura cyberpunk e colapsista de O anti-Édipo, se engajariam em seguida em vias divergentes, fazendo nascer três correntes filosóficas centrais para compreender a mudança de paradigma em que estamos lançados: a corrente feminista, a de esquerda e a de extrema-direita.
III. Hiper-racista, hiper-misógino
Sadie Plant abrirá a via do cyber-feminismo, que encontrará seu eco também na escrita do Manifesto Ciborgue de Donna Haraway; Mark Fisher se tornará um dos críticos mais acirrados do neoliberalismo e Nick Land, finalmente, terminará por ser o guru do “dark enlightenment”, o “iluminismo sombrio” que inspira hoje os “bros” neo-reacionários do Vale do Silício, mas também os ideólogos próximos de Trump como J. D. Vance, Steve Bannon ou Michel Anton.
Como explicar que Land, que havia começado como um cyber-nihilista cool, um escritor brilhante, quase poeta, de teoria-ficção, inspirado em partes iguais por Bataille e Kathy Acker, terminaria como um hiper-racista hiper-misógino (sua filosofia se caracteriza pela adição do prefixo hiper- a quase tudo) e antidemocrático, que defende que o fim da humanidade como a conhecemos (aquilo que ele chama, graciosamente, de “ultrapassamento da escala antropomórfica”) é a condição de um processo evolutivo meta-computacional que permitirá a autonomização da inteligência artificial?
Para Land, a internet havia engendrado uma ruptura filosófica maior: seria possível horizontalizar todas as estruturas de poder da modernidade capitalista e abri-las a um jogo ilimitado de códigos e fluxos em circulação livre. A questão era saber como amplificar este processo em sociedades em que a verticalidade do Estado e das classes sociais interrompe a trajetória dos fluxos. Ocorreu ao espírito de Land, adicionando talvez um pouco de anfetamina ao bigode de Marx, que a melhor solução para chegar a uma implosão das estruturas sociais que sustentavam até então o sistema de produção capitalista era acelerar o processo de informatização e externalização técnica que havia começado com a revolução industrial e que continuava com a revolução cibernética.
IV. Colapso e afundamento
Em 1993, em um texto hoje cult intitulado Meltdown— que poderíamos traduzir igualmente por degelo, derretimento, colapso e afundamento — , Nick Land batizou esta proposição de aceleracionismo. Para Land, não é possível regular o capitalismo, uma vez que seu próprio funcionamento é a desterritorialização, isto é, o apagamento constante de toda lei com o único propósito de produzir um lucro cada vez mais abstrato. Regular o capitalismo, perfumá-lo com medidas de justiça e redistribuição seriam coisas tão ingênuas quanto pedir que um aparador automático parasse ao encontrar em seu caminho patinhas de coelho. Quem poderia prever que este texto tão obscuro quanto confidencial se tornaria, trinta anos mais tarde, o modo de operar de Vance e Musk? O aparador funciona a todo vapor.
Entre 1993 e 1998, à maneira houllebecquiana, Land aplicou o aceleracionismo a sua própria vida: tornou-se um amador de rave, mas de seu apartamento; da música techno, mas sem negros nem jamaicanos. Se especializou na compra e no consumo de psicotrópicos, na troca de documentos sexuais nas “catacumbas” da dark web e propagação de teorias ocultistas e conspiratórias, até chegar ao fundo do poço.
Land, assim como outros filósofos cisgêneros de sua geração agrupados sob a bandeira do “realismo especulativo”, deixou-se ganhar pelo medo ao contemplar a influência que os textos de seus colegas de departamentos de crítica anti-racial e estudos de gênero haviam tido na transformação das estruturas da democracia ocidental, na crítica da masculinidade normativa e nos projetos de decolonização em curso. Depois, eles foram ainda tomados pelo ressentimento: começaram a dizer que, para ver seus livros publicados e recompensados, era preciso ser lésbica ou negro, e que, para conseguir uma promoção na universidade, era preciso ser imigrante. Em 1998, quase como uma sombra, Land abandona a universidade inglesa após ter sido acusado de propagar ódio contra comunidades muçulmanas. No mesmo ano, depois de um episódio depressivo devido ao consumo de psicotrópicos, abandona a Inglaterra e se instala na China, sociedade que materializa, para ele, o programa aceleracionista.
V. Os neo-fascismos se apresentam como um movimento anti-sistema
Durante o período do ressentimento, seu verdadeiro inimigo não é apenas o capitalismo (que, segundo ele, ainda repousa sobre uma separação entre corpo e máquina que deve ser superada pelo super-homem biônico), mas também a democracia: a crença de que todos os seres humanos podem participar de maneira igual nos processos de governo e conhecimento. A filosofia de Land permite, hoje, compreender como os neo-fascismos se apresentam como movimentos anti-sistema. O hiper-masculinismo e o hiper-racismo são percebidos como movimentos minoritários no interior de uma sociedade que os neo-fascistas imaginam dominada por valores democráticos, feministas e anticoloniais, e pela restrição do progresso tecno-capitalista que permitiria ultrapassar a cisão corpo-máquina. É assim que, após o COVID, Land, presente unicamente na internet, tornou-se um inspirador da narrativa da “substituição migratória”, do novo masculinismo “incel” e da purificação étnica que é chamada, graciosamente, de “eugenismo computacional”.
O aceleracionismo anti-democrático de Land está para o tecno-fascismo contemporâneo como o futurismo de Marinetti para o fascismo do século XX. A diferença entre estes dois anti-humanismos é que, face à automatização de todas as relações sociais e ao controle informático da reprodução da vida que promete o aceleracionismo, a fascinação dos futuristas pela velocidade dos automóveis e as metralhadoras automáticas parece um jogo de amadores. “A história vai assim: a singularidade tecno-capitalista conquista a terra (…). A interatividade tecno-econômica logisticamente acelerada afunda a ordem social numa devassidão maquínica auto-suficiente”. A partir daí, para evitar a náusea do ventriloquismo, não posso fazer outra coisa senão citar o próprio Land: “A seleção necessária da espécie se faz através de uma série de guerras mundiais… O comércio planetário emergente derruba o Sacro Império Romano-Germânico, o sistema continental napoleônico, o segundo e o terceiro Reich e a Internacional Soviética, acelerando a desordem mundial por fases compressivas. A desregulamentação e o Estado disputam uma corrida armamentista no cyber-espaço… A clonagem, a transferência lateral de dados genéticos e a realização transversal do cyber-erotismo nos inudam, paralelamente a um retorno ao sexo bacteriano. A neo-China chega do futuro. As drogas hiper-sintéticas se associam ao vodu numérico. Retro-doença. Nano-espasmo. Para além do jugamento de Deus: síndrome sino-planetária, dissolução da biosfera em uma tecno-esfera, crise terminal da bolha especulativa, ultravírus e uma revolução que avança sem freio em direção a um horizonte ácido”. O projeto está em curso. Onde estão as resistências?
Tradução: Luísa Aquino Mariano
Publicado no Libération de 07/02/2026, 6h10.
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