Cosmopolítica como materialismo radicalmente vivo: o que a luta contra a Cargill nos ensina?

por Allan de Campos

Desde o dia 23 de janeiro, um coletivo formado por 14 povos do baixo Tapajós (entre os quais Munduruku, Mayatapu, Arapirun, Tupinambás, entre outros) bloqueiam o acesso de caminhões ao terminal rodoviário de cargas da Cargill no porto de Santarém, no Pará, em protesto contra a transformação do rio Tapajós de um “corpo coletivo e vivo em um corredor morto de exportação”. Uma declaração dessas, feita por Lucas Tupinambá, do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns, em meio aos debates contemporâneos sobre ancestralidade e territórios indígenas, lutas por autonomia, associadas aqui e ali à narrativas decoloniais, pode até parecer, à primeira vista, reforçar um entendimento de que esse bloqueio estaria ligado a uma “excepcionalidade indígena” ou a uma “questão local”, capaz de fazer mover apenas uma certa parte da esquerda, radicalmente ambientalista ou mais sensível às lutas dos povos originários, quase sempre em tom paternalista.

Esse diagnóstico não poderia estar mais equivocado: o problema da Cargill e da soja é a síntese de uma sociedade conflagrada em uma guerra de mundos mais complexa e permeável do que a oposição simplificada entre desenvolvimento e povos indígenas da Amazônia parece sugerir. Um olhar para a geografia relacional da soja no Cerrado e na Amazônia pode nos ajudar a compreender algumas das características socioeconômicas, ambientais e sanitárias desse arranjo que diz respeito à todos.

É pelo rio Tapajós que são transportadas mais de 50 milhões de toneladas de soja todos os anos, produzidas principalmente no estado do Mato Grosso. A Cargill, 4ª maior empresa privada do mundo, uma mega-corporação transnacional com sede nos EUA, é uma das maiores comercializadoras de soja do Brasil, ou traders, como são chamadas no jargão financeiro. Os portos de Santarém e Itaituba recebem dezenas de navios de grande porte diariamente, que levam milho e soja, principalmente para Europa e Ásia. E a Cargill está no centro desse último embate porque tem feito seguidos avanços sobre territórios indígenas, ribeirinhos e quilombolas para ampliar as suas infraestruturas de escoamento de soja do Cerrado e da Amazônia para os mercados globais.

O porto da Cargill em Santarém foi construído em cima da área de um cemitério dos povos indígenas do Tapajós. Relatórios e campanhas de denúncias organizadas pela Terra de Direitos, como a SemLicençaParaCargill, somados a matérias da Sumaúma, Amazônia Latitude, Repórter Brasil, Brasil de Fato e até pesquisas acadêmicas já consolidam um acervo impressionante acerca dos impactos deletérios da corporação no Pará. As acusações contra a Cargill envolvem a falta de consulta prévia aos povos, licenciamento irregular, estudo de impacto ambiental incompleto e impactos sobre a pesca. Em 2013 a Cargill se instalou em outra parte do Rio Tapajós, em Itaituba, repetindo e intensificando violações e impactos socioambientais. A presença da Cargill em Itaituba está associada a um aumento do desmatamento e da violência  contra mulheres, a diminuição de peixes, a contaminação das águas por combustíveis de navios, a conflitos fundiários ligados à expansão da soja e a uma piora na qualidade dos serviços públicos locais.

Em  2017, a Cargill anunciou um terceiro projeto, dessa vez para a construção de um Terminal de Uso Privado em uma ilha na Baía do Capim, em área sobreposta a um assentamento da reforma agrária, próximo à Abaetetuba, a 50km de Belém. Antes mesmo da construção do terminal, a comunidade pesqueira já passou a sentir os efeitos do cercamento dos bens comuns, como os açaizais coletivos. Se construído os impactos serão muito maiores: impactará o regime de marés nas ilhas, os pedrais onde os peixes se reproduzem e as possibilidades de vida como um todo em suas florestas e manguezais.

E, no entanto, tudo isso não passa da ponta do iceberg da soja no Cerrado e na Amazônia. Afinal, os portos são apenas centros logísticos das traders transnacionais. A maior parte do impacto sanitário e socioambiental fica à montante do rio Tapajós, no estado do Mato Grosso, o campeão do agronegócio. A hidrovia Tapajós conecta os portos de Santarém e Itaituba ao eixo sojicultor do Mato Grosso, ao longo da BR-163 — a ferrogrão, ainda em projeto, pretende conectar Sinop (MT) e Miritituba (PA) por via ferroviária e também é objeto de uma série de denúncias (CIMI).

A cadeia da soja mato-grossense é dominada por um oligopólio transnacional que controla desde os insumos (sementes, fertilizantes, pesticidas) até o financiamento, o comércio e o processamento. A produção em si é realizada por grandes fazendeiros “nacionais”, mas eles estão integrados vertical e financeiramente às grandes corporações. O mercado de sementes e biotecnologia é dominado por poucas multinacionais: Bayer-Monsanto controla a tecnologia Roundup Ready (soja transgênica) e seus herbicidas associados. A Corteva (produto da fusão entre Dow e DuPont) e Syngenta (do grupo chinês ChemChina/Sinochem) completam o oligopólio, definindo preços e processos técnicos. A comercialização é operada em regime de oligopólio pelo grupo conhecido como ABCDs da soja (ADM, Bunge, Cargill e LDC), aos quais se juntou, mais recentemente, a gigante estatal chinesa COFCO. Nesse sentido, o controle de portos fluviais é apenas uma característica da natureza oligopolista do agronegócio contemporâneo da soja na Amazônia e no Cerrado.

Para o terror de liberais e estatistas, o caráter oligopolista do agroneǵocio da soja do Brasil é produto de uma política estatal de décadas de patrocínio de corporações, paradoxalmente em defesa do “livre-comércio” e do desenvolvimento econômico. O Plano Safra, que em 2025-26 ultrapassou a cifra de 500 bilhões, resume bem o pacto social que une Estado e sociedade civil em torno do agronegócio: o plano combina investimentos públicos (BNDES) com remunerações por títulos privados. É bem provável que você conheça alguém que investiu dinheiro privado no Plano Safra ou em qualquer outro título financeiro ligado ao agronegócio.

O BNDES permanece como a principal instituição pública de financiamento do agronegócio no Mato Grosso. Desde 2000, o banco financia a internacionalização de grandes conglomerados nacionais do agronegócio como a Amaggi (do ex-ministro da agricultura de Temer), a Bom Futuro e o Grupo Scheffer. O banco também foi um agente crucial no processo de transnacionalização do capital no agronegócio no Mato Grosso, ao fornecer capital a juros subsidiados para que fundos e corporações globais comprassem terras e equipamentos, assim como participações em empresas brasileiras. Um dos casos mais emblemáticos é o do fundo de pensão estadunidense TIAA (Teachers Insurance and Annuity Association) que adquiriu centenas de milhares de hectares no Cerrado, incluindo áreas no Mato Grosso. As gigantes globais do ABCD da soja também tiveram acesso a linhas de financiamento do BNDES para expandir sua infraestrutura logística e industrial dentro do Brasil, garantindo a construção do próprio terminal do porto de Miritituba. Grandes fundos de investimento e imobiliárias rurais também atuam em larga escala no Cerrado, com destaque para a região do MATOPIBA, transformando a terra em ativo financeiro global e acelerando processos de grilagem e ocupação violenta de territórios indígenas e dos povos tradicionais.Tudo isso não poderia acontecer, obviamente, sem o patrocínio ideológico da mídia corporativa: do agro é pop em rede nacional, ao agronejo no latifúndio sonoro. É na saúde coletiva, no entanto, que os impactos do agronegócio da soja se fazem mais prementes.

A guerra do agronegócio contra a saúde coletiva

O agronegócio da soja está associado a um quadro sindêmico: da contaminação aguda e crônica por agrotóxicos a doenças congênitas e arboviroses, a vida humana e de outros que humanos está profundamente danificada, onde quer que a soja alcance. A pulverização de áreas massivas com herbicidas (como o glifosato) e inseticidas contamina fontes de água, escolas rurais e aldeias indígenas, causando intoxicações agudas e doenças crônicas. Resumo aqui alguns dos estudos mais recentes que relatam esses impactos:

A equipe do médico sanitarista e professor da UFMT Wanderlei Pignati (2017) em estudo realizado no município de Lucas do Rio Verde, um dos epicentros da produção de soja no MT, revela um consumo massivo e crescente de agrotóxicos, com destaque para o herbicida glifosato. Análises de indicadores biológicos detectaram resíduos de glifosato, piretróides e organoclorados na urina e no sangue de trabalhadores rurais e moradores urbanos, enquanto a análise da água de chuva comprovou a dispersão atmosférica e a deposição úmida de diversos princípios ativos, criando um espectro de exposição ambiental amplificada para toda a população. Este cenário é agravado pela pulverização aérea de agrotóxicos por aviões e drones, pelas grandes extensões monocultoras e pelas altas temperaturas, que potencializam a deriva dos venenos e os efeitos de toxicidade. A exposição crônica a este coquetel químico está associada a um espectro de adoecimentos que inclui potencial desregulação endócrina, genotoxicidade, alergias e doenças hepáticas.

Outro estudo, coordenado pela sanitarista Mariana Belo (2012), caracterizou mais precisamente a espacialização do consumo de agrotóxicos no Mato Grosso. O estado consome sozinho cerca de um quarto de todos os agrotóxicos utilizados no Brasil, volume que se concentra de forma brutal em um conjunto de municípios do agronegócio – Sorriso, Sapezal, Campo Novo do Parecis, entre outros – que lideram o ranking nacional de pulverização. Detalhe: o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Os mapas de correlação dessa pesquisa demonstram uma sobreposição espacial inequívoca entre esses epicentros de consumo no estado e os territórios com as maiores incidências de intoxicação aguda por agrotóxicos, malformação fetal e mortalidade por câncer infanto-juvenil, ligados principalmente ao glifosato e o clorpirifós. 

Já o grupo da Noemi Oliveira (2014) demonstra que a exposição materna a agrotóxicos nos períodos pós-fecundação e periconcepcional está associada a um risco significativamente maior de ocorrência de malformações, com destaque para os municípios de maior carga de agrotóxico como Sorriso, Nova Mutum e Campo Novo do Parecis.

A “vida danificada”, que em Adorno remete à natureza violadora da vida social regida pelo capital, encontra nas paisagens do agronegócio do Mato Grosso uma nova significação: é como se todo o progresso da indústria química alemã, investida em produzir tecnologias de morte, fosse pulverizado no ar, nos solos, nas águas e nos corpos de comunidades rurais, indígenas e camponesas. O corpo danificado no tecido de uma vida social danificada.

Os citadinos da capital não ficam de fora da contaminação em massa, ainda que em outra escala e com os seus sádicos recortes de classe: um amigo pesquisador de Cuiabá relatou-me que famílias de empresários do agronegócio costumam mudar-se temporariamente para São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro quando estão planejando ter filhos. O momento da concepção é crítico para a geração de problemas congênitos, especialmente em ambientes altamente intoxicados. Eu chamo a atenção para a dissonância cognitiva dentro do próprio agronegócio: eles sabem que estão se envenenando e tentam se proteger, ainda que precariamente, sem contudo poder demonstrar a mínima vacilação em relação a bomba de venenos que pulverizam todos os dias em suas próprias nascentes d’água. O reconhecimento tácito da toxicidade dos agrotóxicos não escapa do consultório dos médicos que atendem as famílias do agro.

Ademais, os agrotóxicos estão associados a uma conjunto de problemas de saúde reprodutiva, como bem mostra o extenso dossiê elaborado por um grupo da ABRASCO — o aborto como problema de saúde coletiva, ligado aos modos de produzir e trabalhar, é invibilizado por setores conservadores “em defesa da vida”, sempre velozes em fechar os olhos para as contaminações laborais.

O avanço do agronegócio também está associado a produção de ambientes mais favoráveis a vetores de arboviroses, como a dengue, zika, chikungunya, em função das mudanças no uso do solo e da alteração de regimes hidrológicos locais,  que podem modificar microclimas e criar condições mais quentes e úmidas, ideais para a reprodução e sobrevivência do vetor. Também a logística rodoviária-hidroviária dos grãos está associada a uma espacialização de mosquitos e doenças.

E, ao menos desde o estudo seminal de Rachel Carson (publicado em 1962), se consolidou uma literatura crítica sobre a relação contraditória entre agrotóxicos e doenças transmitidas por mosquitos, como a malária e a dengue. O uso massivo e crônico de inseticidas no campo (principalmente piretróides e organofosforados) exerce uma forte pressão seletiva sobre as populações do Aedes aegypti, acelerando a evolução e a dispersão de mecanismos de resistência a esses produtos químicos. Os mosquitos suscetíveis morrem, enquanto os resistentes sobrevivem e se reproduzem, fixando geneticamente os traços de resistência em uma população de mosquitos resistentes à inseticidas. Os agrotóxicos oferecem assim uma pressão seletiva para a evolução dos próprios mosquitos e garantem a oferta contínua e cada vez mais resistente à agrotóxicos, assim como preparam o terreno para novos coquetéis de venenos, utilizados em doses cada vez maiores.

Diante desse quadro tão catastrófico, não se pode negar que uma das características mais efetivas da campanha ideológica do agronegócio é a sua capacidade de dissociação em relação aos danos sanitários e ambientais que causa. Tenho a impressão que essa dissociação se traduz na vida cotidiana em uma consciência ambiental zumbi, que sobrevive na forma de surtos espasmódicos, em reação a notícias espetaculares, como no caso da alardeada denúncia sobre o fazendeiro que desmatou o pantanal utilizando agente laranja. O fato é grave e os danos causados talvez sejam irreversíveis. Mas, apesar da comoção no entorno da matéria, o agente laranja, na composição utilizada pelos EUA na Guerra do Vietnã teve a sua produção interrompida nos anos 1970. No entanto, uma das substâncias utilizadas em sua composição original, o herbicida 2,4D, utilizado pelo fazendeiro em questão, é o segundo agrotóxico mais utilizado no Brasil. De acordo com Pignati, o 2,4D é cancerígeno, causa desregulação endócrina e depressão imunológica. Os efeitos na saúde humana e no meio ambiente são devastadores. Ou seja, a manchete choca como fato extraordinário, mas o business as usual do agrotóxico permanece inabalado.

Sabemos que boa parte da esquerda costuma se render aos feitiços do nacional-desenvolvimentismo quando operado por governos de centro-esquerda. No entanto, esse setor prefere não enxergar que a maior parte dos projetos e programas de financiamento ao agronegócio persistiram ao longo dos últimos 20 anos, também durante os governos de Temer e Bolsonaro. Contra o que lutávamos mesmo?A mais recente celebração do acordo do Europa-Mercosul em diversos círculos de esquerda revela, em parte, uma dissonância cognitiva também nas esquerdas: defendemos um livre-comércio oligopolista das corporações globais do agronegócio como se fosse uma questão doméstica, apenas porque Trump dissolve acordo bilaterais, enquanto os EUA se afundam no colapso do império. Mas, enquanto isso, nossos corpos e territórios são destruídos, gerando empregos para a indústria química alemã e produzindo uma guerra química no Brasil, com fronts no Maranhão, no Piauí, em Goiás, no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul, em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul, em Pernambuco, na Bahia no Ceará, entre tantos outros lugares.

Excepcionalidade indígena, cara pálida?

Muita gente de esquerda questiona as revoltas indígenas, via de regra, a partir de formulações ingênuas e rasteiras sobre a natureza da sociedade brasileira. Ademais, a intolerância, deslegitimação ou relativização das lutas indígenas reivindicam, aqui e ali, imagens mais ou menos delirantes sobre um desenvolvimento sustentável dirigido pelo Estado. 

Podemos deixar de lado a pergunta “por que os indígenas protestam contra o desenvolvimento?” em direção à outras perguntas, talvez mais certeiras, como “por que todo mundo não se revolta contra as zonas de sacrifício do agronegócio?Tentar compreender a violação cosmológica dos povos originários pelo desenvolvimentismo (e sua cosmopolítica como resposta ao projeto de aniquilação da vida) pode nos ajudar a acordar do pesadelo da gestão da barbárie — sob a forma do agronegócio nos campos e também do disciplinamento, sempre acompanhado do encarceramento em massa, nas metrópoles.

Chamado para participação no Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente

Por tudo isso, vem muito bem a calhar a realização do 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente, organizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva em parceria com diversos movimentos sociais (MST, MAM, MAB, MPA, Campanha Nacional Permanente contra os Agrotóxicos, dentre outros), com o título “A luta da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico: soberania, justiça e conhecimento para a transformação”, a ser realizado justamente na Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá, entre os dias 27 e 29 de maio de 2026. Acompanhe as redes da ABRASCO para mais informações sobre como participar.


Texto: Allan Campos é geógrafo, pesquisador de pós-doc na UNESP e editor na Igrá Kniga.

Imagem: composição sobre gravura de Manasses Muniz

SOBRE O AUTOR

tocaia
4 de fevereiro de 2026