É preciso começar.
Começar o quê?
A única coisa no mundo que vale a pena começar: o Fim do mundo, ora essa.
Aimé Césaire
Tocaia nasce como erva-daninha entre cultivos acidentais e gestos mais ou menos intencionais, perseguindo todo rastro de presença desobediente nos interstícios das grandes árvores soberanas: ali por onde rastejam as pequenas criaturas, os movimentos imprevisíveis, as associações impróprias, as pequenas antenas que antecipam grandes precipitações. É toca: arranjo sociotécnico estratégico de uma forma de habitar cuja fronteira entre interior e exterior opera como uma interface sensível – o dentro e o fora em constante relação transformativa . É também um estado de presença que espreita o inimigo ao mesmo tempo em que estuda a melhor forma de ataque diante daquilo que cada situação exige. Uma pequena ecologia aberta ao indeterminado, obstinada em conjurar qualquer perspectiva totalizante e transcendental, mas confiante na ação da partilha e na escala da polinização.
Tocaia parte do desejo por uma experimentação simples e radical: retomar o tempo e o ritmo de uma conversa lenta e vinculante. Pensar juntos, arriscar, partilhar nossas hesitações e tantas outras incertezas que nos fazem flutuar nessa atmosfera frenética, saturada de informação e estímulos alucinatórios. Como seria mergulhar fundo no nosso presente? Como seria fazer isso em companhia?
Tocaia é tanto um chamado como um gesto que cultiva a atenção a tudo que nos cerca; uma forma de habitar que não dispensa a hipótese do contra-ataque.
Por isso propomos investigar os caminhos por meio dos quais seria possível reconhecer os bloqueios e as capturas que governam nosso tempo e imaginação. Mapear os inimigos sem abrir mão daquilo que nos torna capazes de agir. Tateando pistas dentro de uma névoa densa e com pouca visibilidade, nos perguntamos: quais formas de vida ainda estamos dispostos a criar e defender? Mckenzie Wark chama de baixa teoria (low theory) a prática de fazer teoria junto de um movimento, um coletivo, um estudo compartilhado, uma pequena conspiração. É a baixa teoria que nos move aqui.
Neste primeiro número, convocamos uma conversa aberta sobre o pensamento radical e os horizontes de transformação diante da aceleração da catástrofe planetária e tecnológica-informacional, produzida pelo ambiente digital-cibernético em que estamos imersos. Espreitamos a expansão da Megamáquina colonial, suas infraestruturas, códigos e artefatos, seus novos discursos tecnológicos e velhas formas de governar que hoje modulam a atenção, os regimes de sensibilidade, os engajamentos afetivos, as formas estéticas radicais. Trinta anos após a explosão da internet comercial, nossos sonhos de liberação foram capturados por novas formas de extração, vigilância e controle. A possibilidade da comunicação distribuída não é mais um problema; o que parece como pesadelo é a comunicação permanente, o ritmo que nos faz pulsar a batida do Capital de modo incessante, nos tornando disponíveis para ela. A máquina está em nós.
Assim, que o capitalismo produza desigualdade e espoliação é parte evidente de qualquer diagnóstico. A parte difícil é ter que, uma vez mais, encarar a pergunta sobre o por quê massacres, como espetáculos de um mundo civilizatório-supremacista, de Gaza ao Rio, possam voltar a acontecer sem que isso não produza um colapso total das formas políticas modernas, suas instituições e promessas de justiça. Não, as massas não foram enganadas, elas desejam o fascismo num certo momento, em determinadas circunstâncias, e é isso que é necessário explicar.
Se o capitalismo não teme a crítica, o que ainda pode sabotar seu funcionamento material, libidinal, maquínico? Não seria, então, possível pensar que nossa urgência não está em um programa ou em um novo desenho de organização, mas, antes, em uma forma de sentir – uma prática de atenção ou infraestruturas de liberação do nosso tempo para fazer emergir experiências de prazer e cumplicidade para uma vida não fascista? Um materialismo profundo cuja prática é a de concatenar as forças desobedientes que animam o mundo contra os modos de subordinação e os velhos/novos hinos do poder ou da produção? Prompts indomáveis. Uma recusa às formas de inteligência reduzidas ao imperativo da eficiência. A afirmação de uma inteligência terrestre voltada ao problema de fazer perseverar à vida em toda sua interdependência, imprevisibilidade e abertura. Retomadas de terra. Uma maquinação-cupim de associações lentas, mas capazes de corroer as máquinas da Conquista e suas armadilhas.
Tocaia é como chamamos também uma política da autonomia que investiga coletivamente as possibilidades de bifurcação no presente: quais arranjos sociotécnicos podem sustentar autonomias para além de enunciados radicais? Como escapar do regime de visibilidade narcísico e da disponibilidade total? Como seria criar formas técnicas que favoreçam territórios de interdependência multiespécie? Quais formas de vida emergem nos interstícios dos circuitos de valor do tecnocapital? Como retomar um horizonte de transformação quando a digitalização se impõe como mediação ubíqua entre nossas práticas, relações, pensamentos, desejos e imaginação? Como partir da exaustão para afirmar coletivamente o que já não podemos suportar? O que nos vincula, afinal? Com que tipo de máquina nos compomos? Que outras máquinas ainda podemos criar e habitar?
Embaralhamos as cartas e, para nos mostrar um jogo, chamamos algumas pessoas. O jogo não está em parte alguma a não ser aqui, entre nós, por meio das coisas que fazemos, admiramos, das relações de confiança que nos fazem sentir o mundo de outra forma, nos fazem imaginar o que podemos ser além de nós mesmos. O jogo é concatenação e fabulação – portanto, maquínico. As cartas estão abertas e nos mostram, por muitos caminhos e geografias, a única coisa no mundo que vale a pena começar.
Coletivo Editorial Tocaia
Alana Moraes é professora de antropologia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Integra o Grupo de Trabalho Tecnopolíticas e Democracia no Antropoceno vinculado ao Instituto de Estudos Avançados e Convergentes da UNIFESP. Integra a rede LAVITS (Rede latino-americana de estudos em vigilância, tecnologia e sociedade/LAVITS); do Pimentalab-UNIFESP e do grupo Guerra de Mundos-UNIFESP onde desenvolve ações de pesquisa e de extensão sobre tecnologias, lutas sociais, antropoceno, gênero e colonialismo
Henrique Z.M. Parra é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo, coordenador do Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento (Pimentalab) e do Laboratório de Humanidades Digitais (Labhum). É integrante da Rede Latinoamericana de Estudos em Tecnologia, Vigilância e Sociedade (LAVITS) e da Red Tierra Comun
Pedro Ekman é arquiteto formado pela USP, Coordenador Executivo do Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social e diretor na Molotov Filmes, escreveu e dirigiu o longa documentário FREENET e o curta NHANDEFLIX.
Leonardo Foletto é professor e pesquisador da ECA-USP, no Departamento de Comunicações e Artes (CCA). Jornalista e doutor em Comunicação, trabalha com comunicação, ativismo e cultura digital desde 2008 a partir do BaixaCultura ( https://baixacultura.org ). É integrante do capítulo brasileiro do Creative Commons ( https://br.creativecommons.net/ ) e da Coalizão Direitos na Rede ( https://direitosnarede.org.br/ )
Fernanda Bruno é professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura e do Instituto de Psicologia da UFRJ e coordenadora do MediaLab (UFRJ). Membro-fundadora da Rede latino-americana de estudos em vigilância, tecnologia e sociedade/LAVITS
SOBRE O AUTOR