MANIFESTO TECNOPOLÍTICO

Por Emmanuel Biset / Flávia Costa / Javier Blanco

Vivemos uma transformação no mundo que gera uma profunda reviravolta em todas as certezas. Essa reviravolta se manifesta em dois processos: a aceleração que a mediação técnica produz em todos os aspectos da vida e a crise ambiental antropogênica, que destitui a natureza como pano de fundo e a torna instável. Ambos processos exigem soluções tecnológicas, pelo menos inicialmente. Não é de se estranhar que, nesse contexto, a política esteja passando por um processo de transformação vertiginosa, que exigirá a reformulação de seus vocabulários e práticas. Seremos contemporâneos de nossa época se formos capazes de inventar essa política.

A invenção política supõe sempre a articulação da herança de uma tradição e a imaginação de futuros. Particularmente, daquela tradição feita sob a força de misturas, extinções, mesclas e hibridizações, que conseguimos converter em nossa. Só será possível acomodar uma nova política se formos capazes de afirmar, de forma crítica e amorosa, aquelas tradições de pensamento radical sobre modos de vida, tecnologia e ecologia que foram tecidas na América Latina. Futuros abertos só existirão se ativarmos uma imaginação que esteja à altura do presente. Herdar aquelas tradições que ensinam que a natureza e o meio ambiente não são recursos, e que a inovação e a tecnologia não são meras ferramentas de decisões políticas, mas definidoras de suas próprias políticas. Devemos abrir a imaginação de múltiplos futuros que restaurem a possibilidade de um mundo desejável. Para isso, é necessário considerar a sempre tensa concorrência entre política, natureza e tecnologia.

Os desígnios da política

1. Uma das características do Antropoceno é o aumento massivo da entropia e da imprevisibilidade, ou seja, a dissipação de energia e o esgotamento dos potenciais dinâmicos e da capacidade regenerativa dos recursos, tanto materiais quanto cognitivos. O esgotamento da regeneração dos recursos cognitivos e sociais encontra um lugar privilegiado na política. Sua crise surge do uso de ferramentas teóricas e práticas de um mundo que não existe mais. Mediações computacionais e problemas ambientais exigem um novo vocabulário político.

2. A primeira tarefa é negativa: abandonar qualquer conceito político que torne a tecnologia ou a natureza fenômenos exógenos que afetam o mundo das relações humanas. Não se trata de conceber nem de um determinismo tecnológico ou natural que afete o mundo político, nem a tecnologia ou a natureza como meros campos de aplicação da política. Não há política hoje sem o entrelaçamento irredutível entre tecnologias e natureza. Certas conceituações comuns de mediações computacionais precisam ser desconstruídas, tanto instrumentais quanto antropomórficas.

3. A segunda tarefa é analítica: gerar um quadro geral de compreensão que identifique a emergência de novas escalas de relação social e interespécie e ponha em relevo não apenas a substancialidade dessas novas escalas, mas também a emergência de novas formas de relações entre elas. O que implica percorrer e expandir a memória de operações culturais de longa data em nossa região: hibridizações, mestiçagens, recombinações, crioulos, profanações, ensamblagens, cosmotécnicas em múltiplas direções. O ponto de partida é compreender que categorias como povo, sociedade e proletariado não capturam mais a rede de laços atravessada por mediações tecnológicas e a irrupção planetária. Analisar as formas do que costumava ser chamado de relações sociais implica redefinir os fenômenos aos quais se deve prestar atenção.

4. A terceira tarefa é proativa: o desafio abismal é encontrar, imaginar e inventar uma definição de política que possa dar conta de uma agência distribuída entre seres humanos e não humanos. O cerne da questão política são as transformações contemporâneas nos vínculos entre seres humanos, entre humanos e não humanos, e além. Seja na IA ou em outras mediações computacionais, ou em fenômenos climáticos, nos deparamos com formas políticas que articulam novos existentes: algoritmos, secas, plataformas, vírus, incêndios. Se a pólis sempre foi constituída por relações que ultrapassavam a interação entre seres humanos, hoje mais do que nunca devemos imaginar uma política em que nada seja excluído. Não se trata apenas de redefinir a política, mas de todo um vocabulário onde palavras como ação, liberdade, democracia e emancipação encontram novos sentidos. Mentes, sujeitos, mediações tecnológicas, coletivos e organizações se constituem mutuamente, o que tensiona conceitos herdados.

5. A quarta tarefa é prática: a política é jogada atualmente em terrenos diversos. Na economia da atenção, na construção de perfis, na automatização de processos decisórios. Numa geologia das mídias, a extração de materiais do solo, a disseminação de vírus, bactérias, fungos e parasitas. As práticas da política se colocam em outros territórios: mediações computacionais como instrumentos para formas tradicionais de organização política e campanhas eleitorais, mediações naturais que abrem novos atores políticos, como minerais, vírus ou espécies. Precisamos abrir espaço a práticas nessa redefinição dos territórios da política. Uma tarefa urgente é explorar formas efetivas de organização articuladas a partir das múltiplas possibilidades abertas pelas mediações computacionais onipresentes.

6. Em resumo, é possível identificar dois movimentos. De um lado, identificamos uma profunda hesitação no que entendemos por política, sem ter ainda consenso sobre uma nova definição. Elementos centrais de sua acepção, como liberdade, ação e decisão, estão atualmente em discussão não apenas porque falta um sentido comum entre os “humanos”, mas porque são transferidos para dispositivos maquínicos e existentes naturais. Por outro lado, identificamos a necessidade de formular uma tecnopolítica apropriada ao nosso tempo, na qual devemos incorporar seres não humanos à política, distribuir amplamente a agência e pensar em escalas de tempo geológicas. Estamos diante de um novo regime de significado político que deve exceder qualquer definição humana, demasiado humana.

7. Neste novo regime de significado, é necessário abordar como as transformações tecnológicas e naturais em curso frequentemente acarretam inicialmente efeitos entrópicos — isto é, efeitos homogeneizantes e redutores da capacidade de agência — mas também possibilitam processos na direção oposta. Isso implica compreender como certas tecnologias digitais e redes de seres não humanos, em sua enorme versatilidade, permitem a construção de formas mais sofisticadas de organização em múltiplos níveis e escalas. A ação política hoje requer a constituição de processos de abstração que reconfigurem o cenário político e abram novos espaços de possibilidade.

8. Os sistemas de IA atuais, em particular os modelos de linguagem de grande porte (LLM), fomentam relações alienadas com os usuários. O prompt como forma de operação técnica não só é limitado, como também reforça uma visão antropomórfica dessas entidades, o que, por um lado, leva à atribuição de características infundadas a elas e, por outro, a perder de vista as reais virtudes tecnológicas e possibilidades evolutivas. A ausência de código legível, compreensível e modificável nos sistemas produzidos por aprendizado de máquina restringe os tipos de conexões tecnológicas possíveis.

9. Neste novo regime de significado, é necessário desativar aqueles imaginários que fazem da tecnologia apenas uma ferramenta de controle e da natureza apenas um local de recursos que seguem leis imutáveis. Confrontar qualquer defesa do excepcionalismo humano é mostrar que o caráter plural dos processos tecnológicos e naturais os converte em objetos de disputa quanto ao seu próprio potencial emancipatório. A disputa política atual reside em como projetar o entrelaçamento irredutível entre humanos, tecnologia e natureza. Nas formas de elaboração, sem reduzi-las a um voluntarismo humano, se joga a política que está por vir.

Rumo a uma tecnopolítica

1. Se a realpolitik tradicionalmente designa o modo de configuração das relações geopolíticas internacionais, hoje é necessário considerar uma real-tecno-politik. A tecnopolítica atual é marcada pela polarização entre Estados Unidos e China, com outros blocos, como Europa e Rússia, atuando entre eles de diversas maneiras. Nesse contexto, os países latino-americanos estão sob pressão em relação aos seus recursos energéticos e são atravessados ​​por fraturas e linhas de tensão. A ascensão das novas direitas é talvez o fato mais significativo deste momento histórico.

2. O ponto de partida de qualquer política é reconhecer essas disputas tecnopolíticas e a emergência da direita radical como uma forma política singular. Nesse cenário, a tarefa é construir uma política concreta que confronte a proposta da direita radical sem apelar a qualquer nostalgia por passados ​​idealizados. Para tanto, devemos desativar qualquer proposta que pressuponha resistência para interromper um processo em curso. O desafio não é recuar ou resistir, mas disputar o futuro. A tarefa tecnopolítica é oferecer futuros desejáveis ​​que produzam algo a partir de resquícios afetivos contemporâneos.

3. Para isso, precisamos definir estratégias que: restaurem o poder das instituições públicas de definir políticas contra o avanço exclusivo de empresas privadas; apostem em tornar bens comuns tudo o que, por meio de cercamentos, é apropriado apenas para o lucro privado; estabeleçam como princípio a multiplicidade no seio da tecnologia e da natureza. A tecnodiversidade e a geodiversidade destituem qualquer política de adaptação a uma única linha de progresso, trabalhando no seio das mediações computacionais e naturais em andamento.

4. Para isso, precisamos redefinir os territórios em que a política está sem disputa. Estamos diante de uma nova topologia definida pelo entrelaçamento de diferentes estratos materiais e digitais. Essa compreensão não pode ser meramente instrumental; ao contrário, deve reconhecer como, na tecnopolítica atual, a tecnologia constitui o ambiente. Precisamos construir coletivamente uma inteligência planetária que nos permita gerar uma geografia vertical dos múltiplos territórios em disputa.

5. O primeiro desafio da tecnopolítica contemporânea é responder à pergunta: quais significados constituem a política hoje? A ênfase no “o quê” implica caminhar em direção à constituição de um vocabulário comum. Isso requer considerar que a política atualmente não apenas atravessa as instituições políticas tradicionais — diferentes instâncias do Estado — mas também adentra novos territórios: as plataformas digitais, a configuração de algoritmos, a extração de materiais, a definição de doenças. A disputa política por excelência hoje gira em torno de como o mundo está sendo desenhado a partir de instâncias não passíveis de discussão política. Discutimos candidatos a eleições, mas não a captura de dados em nossos celulares ou o uso de produtos químicos no solo. Precisamos de um vocabulário político que nos permita compreender a natureza das disputas atuais e as orientações possíveis.

6. O segundo desafio da tecnopolítica contemporânea é responder à pergunta: como proceder? A ênfase no “como” requer novas ferramentas cognitivas, práticas ousadas e entramados inéditos. Pensar no “como” pressupõe que a tarefa fundamental decorra da concepção de uma organização atualizada. Organizações políticas que não se reduzam ao confronto interno pela resistência ao existente e que se constituam de forma intrinsecamente heterogênea. Modos de organização que ofereçam uma alternativa para um futuro mais justo no entramado dos estratos digitais e naturais. Como nos organizar é uma tarefa urgente, pois redefine não apenas os lugares onde a política é conduzida, mas também como as comunidades são constituídas. Os desafios que enfrentamos exigem uma matriz organizacional que funcione em múltiplos estratos, que seja composta por entidades heterogêneas, que abra mundos possíveis.

7. Em última análise, este manifesto é um chamado à configuração coletiva de uma gramática política que permita a articulação dos entramados entre humanos e não-humanos que definem o mundo atual. Para tanto, é necessário mostrar simultaneamente como na tecnologia e na natureza se dão múltiplas disputas e como abrigam possibilidades inéditas de invenção. O entrelaçamento irredutível de formas políticas, processos tecnológicos e estratos da Terra é um espaço de criação conjunta, extremamente versátil e ainda virtualmente inexplorado. Abrir caminhos mais justos para projetar esse entrelaçamento é a única política com sentido.

SOBRE O AUTOR

rbantu
19 de dezembro de 2025