Vivemos uma transformação no mundo que gera uma profunda reviravolta em todas as certezas. Essa reviravolta se manifesta em dois processos: a aceleração que a mediação técnica produz em todos os aspectos da vida e a crise ambiental antropogênica, que destitui a natureza como pano de fundo e a torna instável. Ambos processos exigem soluções tecnológicas, pelo menos inicialmente. Não é de se estranhar que, nesse contexto, a política esteja passando por um processo de transformação vertiginosa, que exigirá a reformulação de seus vocabulários e práticas. Seremos contemporâneos de nossa época se formos capazes de inventar essa política.
A invenção política supõe sempre a articulação da herança de uma tradição e a imaginação de futuros. Particularmente, daquela tradição feita sob a força de misturas, extinções, mesclas e hibridizações, que conseguimos converter em nossa. Só será possível acomodar uma nova política se formos capazes de afirmar, de forma crítica e amorosa, aquelas tradições de pensamento radical sobre modos de vida, tecnologia e ecologia que foram tecidas na América Latina. Futuros abertos só existirão se ativarmos uma imaginação que esteja à altura do presente. Herdar aquelas tradições que ensinam que a natureza e o meio ambiente não são recursos, e que a inovação e a tecnologia não são meras ferramentas de decisões políticas, mas definidoras de suas próprias políticas. Devemos abrir a imaginação de múltiplos futuros que restaurem a possibilidade de um mundo desejável. Para isso, é necessário considerar a sempre tensa concorrência entre política, natureza e tecnologia.
Defina o mundo
1. Assistimos a uma grande transformação que está engendrando um novo mundo devido a duas causas: a) tudo o que está associado à tecnologia está produzindo uma mudança no mundo por meio da emergência e consolidação das mediações computacionais onipresentes que aprofundam a aceleração das formas de vida e operam como suporte para uma nova ordem algorítmica do mundo existente; b) tudo o que está associado à natureza está passando por mudanças que produzem instabilidade primordial. Mudanças climáticas, aquecimento global e devastação ambiental são apenas as marcas registradas de uma era localizada sob o nome Antropoceno.
2. Esta grande transformação se origina de uma dupla ruptura. Não é mais possível circunscrever um mundo social ou cultural independente da mediação tecnológica ou dos processos naturais. A ilusão de um mundo social/cultural autônomo se desfaz. Não é mais possível definir um mundo exclusivamente a partir da ação do ser humano. A ilusão do excepcionalismo humano se desfaz. Estamos diante da emergência de um mundo multiescalar definido pelo entrelaçamento de vida, inteligência e tecnologia. Portanto, é necessário inventar novas palavras.
3. Pode-se buscar múltiplas origens históricas da grande transformação. Toda busca por uma origem restaura a ilusão de uma ruptura única e de um limite preciso. O mundo contemporâneo é definido por algo mais radical: tempo e espaço deixaram de ser categorias a priori e são modificados pelos próprios processos tecnológicos e naturais que atravessamos. Não é mais possível situar, porque tempo e espaço deixaram de ser definições de um contexto e se tornaram materiais instáveis e passíveis de transformações. O ritmo dessas transformações, que afetam cada vez mais as condições de subjetivação, continua se acelerando.
4. O mundo contemporâneo escapa às possibilidades históricas do conhecimento e da imaginação humanos. O aprendizado de máquina, por meio do reconhecimento massivo de padrões, permite a produção de formas de conhecimento sem precedentes na história humana. A abertura para ontologias de seres não humanos, através de histórias infinitas, produz formas de conhecimento inéditas dos múltiplos mundos dentro do mundo. A combinação de aprendizado de máquina e múltiplas ontologias transforma drasticamente a capacidade de percepção do mundo.
5. A vida psíquica e social, formas de subjetivação e socialização, atravessam um momento disruptivo, marcado por uma crescente discrepância entre as velocidades da evolução técnica e do desmantelamento da natureza, por um lado, e a construção de ferramentas conceituais necessárias para entendê-la e orientá-la, por outro. Estamos diante da emergência de um novo modo de subjetivação: audiências móveis de identidades desagregadas, prontos para a guerra. Essas audiências estão exaustas (por falta de tempo), irritadas (por frustrações diversas) e imersas em uma batalha (contra as ordens institucionais modernas, percebidas como limitantes).
6. Neste mundo, surgiu uma proposta política de novo tipo: uma direita radical que funda sua posição em uma guerra contra a catedral progressista, na qual o mundo não pode mais acomodar a todos. Qualquer terreno comum se quebra na fantasia de fuga para outros planetas. Essa direita representa uma aliança sem precedentes entre o capitalismo voraz, o conservadorismo cultural e as novas tecnologias. Até agora, tem sido o único lugar para onde o crescente descontentamento contemporâneo foi canalizado. O fim da ilusão do progresso infinito e a impossibilidade das democracias atuais de melhorar as condições das grandes maiorias são canalizados em um ressentimento que encontra sua forma na incorreção política.
7. A simbiose entre redes digitais e movimentos políticos ultraconservadores é, no entanto, contingente, própria de um momento específico na evolução técnica e nas tradições políticas. Nossa tarefa é inventar uma política radical que confronte a direita. Uma política que possa canalizar o descontentamento contemporâneo, demonstrando seu potencial de transformação. Há duas condições para formular uma política radical neste mundo: abandonar uma visão instrumental das tecnologias computacionais atuais e abandonar uma visão da natureza apenas como um recurso. Nem instrumento, nem recurso. Ambas dimensões devem ser entendidas como constitutivas de um espaço político que abra possibilidades emancipatórias. Somos movidos pela necessidade de inventar um antagonismo político à direita radical.
Herdar tradições
1. A invenção política que o presente exige encontrará seu lugar se formos capazes de herdar um conjunto de tradições latino-americanas que conseguiram articular política, natureza e tecnologia em um sentido emancipatório. Tradições que instituíram imagens de outros mundos possíveis, conceitos para nomeá-los e operações para realizá-los. De fato, muitos dos problemas urgentes do mundo atual são, para esta região do planeta, um retorno a formas de seu passado. Uma região que se conjuga ciclicamente no futuro anterior.
2. A primeira tradição que herdamos é aquela que, nas décadas de 1960 e 1970, em vários países latino-americanos, produziu uma articulação entre o pensamento científico e tecnológico e projetos de desenvolvimento que não necessariamente seguiam as diretrizes prescritas pelas potências mundiais. Foi um movimento multidisciplinar, conceitualmente criativo e politicamente comprometido. Para essa tradição, as transformações tecnológicas são uma oportunidade para renovar estratégias políticas e culturais e propor novas possibilidades de mudança. Exemplos disso foram o desenvolvimento de modelos numéricos que nos permitiram vislumbrar possibilidades de evolução social, ou sistemas de tomada de decisão distribuídos — como o Cybersyn no Chile — que fomentaram a democratização radical dos espaços de trabalho.
3. A segunda tradição que herdamos é aquela que, desde cedo, reconheceu que as disputas nessa região sempre foram por terra. A própria constituição de uma região latino-americana pressupõe a articulação entre a extração de recursos naturais e a desapropriação de populações indígenas. Formas de apropriação dos chamados recursos naturais sempre estiveram em jogo na busca do desenvolvimento como promessa não cumprida. Para essa tradição, há uma memória inscrita nos estratos do solo: na América Latina, nunca foi possível pensar a natureza como pano de fundo para ações políticas; aqui, ela sempre foi objeto de disputas. Como se o Antropoceno nessa região fosse coisa do passado. Portanto, é preciso recuperar os imaginários políticos que inscreviam no próprio território a possibilidade de uma justiça por vir.
4. O desafio atual é produzir uma articulação entre esses dois legados, mostrando como os desenvolvimentos tecnológicos sempre implicam uma disputa por terras (uma geopolítica dos minerais) e como os territórios são sempre definidos por disputas entre tecnologias (uma fragmentação da cosmotécnica).
Multiescalaridade da inteligência planetária
1. O grande desafio o Antropoceno apresenta é o caráter múltiplo das crises existentes. Isso é atualmente chamado de policrise: crises ambientais, crises de desigualdade, crises migratórias etc. O principal desafio da policrise é abordar a reformulação das escalas temporais e espaciais. A escala do espaço atual é “planetária”. A escala do tempo atual é o “tempo profundo”. Temos que pensar simultaneamente o colapso das escalas existentes e inventar maneiras de pensar sobre múltiplas escalas.
2. Os desenvolvimentos tecnocientíficos das décadas de 1960 e 1970 se basearam no aproveitamento dos ainda escassos recursos computacionais. Modelos matemáticos, numéricos e cibernéticos, concebidos como ferramentas políticas estratégicas, permitiram antever bifurcações, caminhos de crescente independência alternativos à visão única de desenvolvimento proposta pelas grandes potências. O modelo viável associado ao projeto Cybersyn no Chile de Allende, ou o Modelo Bariloche de crescimento econômico, ou ainda os diversos modelos numéricos de questões sociais desenvolvidos por Oscar Varsavsky são exemplos paradigmáticos.
3. As disputas por terra se baseavam em uma profunda simbiose entre agentes humanos e não humanos. É impossível narrar a história da América Latina sem mostrar as múltiplas ontologias que fazem da terra um entrelaçamento constante de tecnologias, naturezas e seres humanos. A história da terra nos permite mostrar não apenas a multiescalaridade e o tempo inscritos nos estratos, mas também a natureza plural dos mundos que existem dentro de um território.
4. São necessárias imagens e mediações que, por sua vez, permitam trabalhar sobre o caráter fragmentário dos mundos do Antropoceno e construir uma interface planetária. Uma interface tecnológica para a pluralidade de mundos existentes. Um atlas vertical dos estratos tecnológicos que definem os mundos. Essa interface será possível ativando o potencial democratizante da programação computacional, intrinsecamente propício ao trabalho colaborativo e aberto ao comum. Quando a computação se torna um fenômeno ubíquo, ela se torna uma metatecnologia, o que pode ser entendido como uma estrutura para o desenvolvimento de formas técnicas múltiplas e heterogêneas, com diferentes signos políticos.
5. Atualmente, a disputa reside na conjugação de duas dimensões. Por um lado, as formas de percepção atuais são definidas por uma interface de sensores que configuram mundos. Sensores onipresentes: sensores de temperatura, sensores de movimento, sensores de dados. A infraestrutura perceptual do mundo atual é definida como uma interface de sensores. Por outro lado, as formas de cognição atuais são definidas como inteligência sintética, composta por agentes humanos e não humanos. A infraestrutura cognitiva do mundo atual é definida como inteligência sintética. Infraestrutura perceptiva, infraestrutura cognitiva. A tarefa é dar origem a uma infraestrutura política na combinação de infraestrutura perceptual e infraestrutura cognitiva.
6. A discussão tecnopolítica parece girar em torno do desenvolvimento da IA, da corrida para liderar esses desenvolvimentos, mas também para fomentar imaginários distintos. A discussão geopolítica parece presa entre um prometeísmo esclarecido que busca resolver o problema ambiental por meio da geoengenharia global e um pós-humanismo autonomista que defende as linguagens da resistência. Em resposta, sustentamos que o presente exige a constituição de inteligências sintéticas do Antropoceno irregular. Para tanto, por um lado, vale destacar que ambos os termos da expressão “inteligência artificial” são inadequados para descrever os sistemas atuais; portanto, recuperamos a expressão “inteligência sintética” para nos referirmos à combinação de “cognição computacional” e “cognição humana”. Por outro lado, o termo Antropoceno tem suscitado discussões profusas sobre a restauração de um universalismo que unifique a humanidade como um todo responsável pela devastação ambiental; preferimos mantê-lo, abrigando em seu seio um equivoco que não apenas o torna plural ou irregular, mas também objeto de disputas políticas. Inteligências sintéticas do Antropoceno, ou melhor, infraestruturas cognitivas planetárias, são um pré-requisito para considerar a natureza fragmentada do mundo e imaginar futuros desejáveis.
7. A corrida pela IA permitiu que corporações globais tomar a iniciativa, uma vez que, diferentemente da maioria dos desenvolvimentos de software, ela requer grandes infraestruturas de hardware e acesso à produção massiva de dados. Reivindicar esse tipo de software como um bem comum, em consonância com o sempre presente movimento do software livre e a vasta tradição de comunalidade de todos os ativos culturais e científicos, é um pré-requisito para a construção de outros futuros geotecnopolíticos. Isso é imediatamente possível e envolve reatualizar as possibilidades emancipatórias intrínsecas às tecnologias computacionais hospedadas em múltiplos mundos como uma extensão e aprimoramento das capacidades cognitivas gerais. Essas possibilidades emancipatórias são encontradas nas maneiras pelas quais a cognição computacional excede e complementa o humano, constituindo uma interface de múltiplos existentes. A tarefa é imaginar uma cognição computacional para além do humano sem cair em um transumanismo que apenas restaura um humanismo uniforme.
8. A multiescalaridade que demanda abordar um Antropoceno irregular encontra uma possibilidade na tecnologia atual. Diante da captura massiva de dados por plataformas e da corrida para definir a Inteligência Artificial, a tarefa é dupla: demonstrar a natureza plural das tecnologias e restaurar seu uso comum. Desenvolver ferramentas tecnoconceituais capazes de dar conta das múltiplas escalas em que a política se realiza. As mediações computacionais planetárias não constituem apenas formas cognitivas, mas também novos quadros agenciais, cuja compreensão é indispensável para uma ação coletiva eficaz no presente. Isso implica gerar meios políticos específicos que permitam, simultaneamente, contestar a configuração da tecnologia e estabelecer novas formas do comum.
Os desígnios da política
1. Uma das características do Antropoceno é o aumento massivo da entropia e da imprevisibilidade, ou seja, a dissipação de energia e o esgotamento dos potenciais dinâmicos e da capacidade regenerativa dos recursos, tanto materiais quanto cognitivos. O esgotamento da regeneração dos recursos cognitivos e sociais encontra um lugar privilegiado na política. Sua crise surge do uso de ferramentas teóricas e práticas de um mundo que não existe mais. Mediações computacionais e problemas ambientais exigem um novo vocabulário político.
2. A primeira tarefa é negativa: abandonar qualquer conceito político que torne a tecnologia ou a natureza fenômenos exógenos que afetam o mundo das relações humanas. Não se trata de conceber nem de um determinismo tecnológico ou natural que afete o mundo político, nem a tecnologia ou a natureza como meros campos de aplicação da política. Não há política hoje sem o entrelaçamento irredutível entre tecnologias e natureza. Certas conceituações comuns de mediações computacionais precisam ser desconstruídas, tanto instrumentais quanto antropomórficas.
3. A segunda tarefa é analítica: gerar um quadro geral de compreensão que identifique a emergência de novas escalas de relação social e interespécie e ponha em relevo não apenas a substancialidade dessas novas escalas, mas também a emergência de novas formas de relações entre elas. O que implica percorrer e expandir a memória de operações culturais de longa data em nossa região: hibridizações, mestiçagens, recombinações, crioulos, profanações, ensamblagens, cosmotécnicas em múltiplas direções. O ponto de partida é compreender que categorias como povo, sociedade e proletariado não capturam mais a rede de laços atravessada por mediações tecnológicas e a irrupção planetária. Analisar as formas do que costumava ser chamado de relações sociais implica redefinir os fenômenos aos quais se deve prestar atenção.
4. A terceira tarefa é proativa: o desafio abismal é encontrar, imaginar e inventar uma definição de política que possa dar conta de uma agência distribuída entre seres humanos e não humanos. O cerne da questão política são as transformações contemporâneas nos vínculos entre seres humanos, entre humanos e não humanos, e além. Seja na IA ou em outras mediações computacionais, ou em fenômenos climáticos, nos deparamos com formas políticas que articulam novos existentes: algoritmos, secas, plataformas, vírus, incêndios. Se a pólis sempre foi constituída por relações que ultrapassavam a interação entre seres humanos, hoje mais do que nunca devemos imaginar uma política em que nada seja excluído. Não se trata apenas de redefinir a política, mas de todo um vocabulário onde palavras como ação, liberdade, democracia e emancipação encontram novos sentidos. Mentes, sujeitos, mediações tecnológicas, coletivos e organizações se constituem mutuamente, o que tensiona conceitos herdados.
5. A quarta tarefa é prática: a política é jogada atualmente em terrenos diversos. Na economia da atenção, na construção de perfis, na automatização de processos decisórios. Numa geologia das mídias, a extração de materiais do solo, a disseminação de vírus, bactérias, fungos e parasitas. As práticas da política se colocam em outros territórios: mediações computacionais como instrumentos para formas tradicionais de organização política e campanhas eleitorais, mediações naturais que abrem novos atores políticos, como minerais, vírus ou espécies. Precisamos abrir espaço a práticas nessa redefinição dos territórios da política. Uma tarefa urgente é explorar formas efetivas de organização articuladas a partir das múltiplas possibilidades abertas pelas mediações computacionais onipresentes.
6. Em resumo, é possível identificar dois movimentos. De um lado, identificamos uma profunda hesitação no que entendemos por política, sem ter ainda consenso sobre uma nova definição. Elementos centrais de sua acepção, como liberdade, ação e decisão, estão atualmente em discussão não apenas porque falta um sentido comum entre os “humanos”, mas porque são transferidos para dispositivos maquínicos e existentes naturais. Por outro lado, identificamos a necessidade de formular uma tecnopolítica apropriada ao nosso tempo, na qual devemos incorporar seres não humanos à política, distribuir amplamente a agência e pensar em escalas de tempo geológicas. Estamos diante de um novo regime de significado político que deve exceder qualquer definição humana, demasiado humana.
7. Neste novo regime de significado, é necessário abordar como as transformações tecnológicas e naturais em curso frequentemente acarretam inicialmente efeitos entrópicos — isto é, efeitos homogeneizantes e redutores da capacidade de agência — mas também possibilitam processos na direção oposta. Isso implica compreender como certas tecnologias digitais e redes de seres não humanos, em sua enorme versatilidade, permitem a construção de formas mais sofisticadas de organização em múltiplos níveis e escalas. A ação política hoje requer a constituição de processos de abstração que reconfigurem o cenário político e abram novos espaços de possibilidade.
8. Os sistemas de IA atuais, em particular os modelos de linguagem de grande porte (LLM), fomentam relações alienadas com os usuários. O prompt como forma de operação técnica não só é limitado, como também reforça uma visão antropomórfica dessas entidades, o que, por um lado, leva à atribuição de características infundadas a elas e, por outro, a perder de vista as reais virtudes tecnológicas e possibilidades evolutivas. A ausência de código legível, compreensível e modificável nos sistemas produzidos por aprendizado de máquina restringe os tipos de conexões tecnológicas possíveis.
9. Neste novo regime de significado, é necessário desativar aqueles imaginários que fazem da tecnologia apenas uma ferramenta de controle e da natureza apenas um local de recursos que seguem leis imutáveis. Confrontar qualquer defesa do excepcionalismo humano é mostrar que o caráter plural dos processos tecnológicos e naturais os converte em objetos de disputa quanto ao seu próprio potencial emancipatório. A disputa política atual reside em como projetar o entrelaçamento irredutível entre humanos, tecnologia e natureza. Nas formas de elaboração, sem reduzi-las a um voluntarismo humano, se joga a política que está por vir.
Rumo a uma tecnopolítica
1. Se a realpolitik tradicionalmente designa o modo de configuração das relações geopolíticas internacionais, hoje é necessário considerar uma real-tecno-politik. A tecnopolítica atual é marcada pela polarização entre Estados Unidos e China, com outros blocos, como Europa e Rússia, atuando entre eles de diversas maneiras. Nesse contexto, os países latino-americanos estão sob pressão em relação aos seus recursos energéticos e são atravessados por fraturas e linhas de tensão. A ascensão das novas direitas é talvez o fato mais significativo deste momento histórico.
2. O ponto de partida de qualquer política é reconhecer essas disputas tecnopolíticas e a emergência da direita radical como uma forma política singular. Nesse cenário, a tarefa é construir uma política concreta que confronte a proposta da direita radical sem apelar a qualquer nostalgia por passados idealizados. Para tanto, devemos desativar qualquer proposta que pressuponha resistência para interromper um processo em curso. O desafio não é recuar ou resistir, mas disputar o futuro. A tarefa tecnopolítica é oferecer futuros desejáveis que produzam algo a partir de resquícios afetivos contemporâneos.
3. Para isso, precisamos definir estratégias que: restaurem o poder das instituições públicas de definir políticas contra o avanço exclusivo de empresas privadas; apostem em tornar bens comuns tudo o que, por meio de cercamentos, é apropriado apenas para o lucro privado; estabeleçam como princípio a multiplicidade no seio da tecnologia e da natureza. A tecnodiversidade e a geodiversidade destituem qualquer política de adaptação a uma única linha de progresso, trabalhando no seio das mediações computacionais e naturais em andamento.
4. Para isso, precisamos redefinir os territórios em que a política está sem disputa. Estamos diante de uma nova topologia definida pelo entrelaçamento de diferentes estratos materiais e digitais. Essa compreensão não pode ser meramente instrumental; ao contrário, deve reconhecer como, na tecnopolítica atual, a tecnologia constitui o ambiente. Precisamos construir coletivamente uma inteligência planetária que nos permita gerar uma geografia vertical dos múltiplos territórios em disputa.
5. O primeiro desafio da tecnopolítica contemporânea é responder à pergunta: quais significados constituem a política hoje? A ênfase no “o quê” implica caminhar em direção à constituição de um vocabulário comum. Isso requer considerar que a política atualmente não apenas atravessa as instituições políticas tradicionais — diferentes instâncias do Estado — mas também adentra novos territórios: as plataformas digitais, a configuração de algoritmos, a extração de materiais, a definição de doenças. A disputa política por excelência hoje gira em torno de como o mundo está sendo desenhado a partir de instâncias não passíveis de discussão política. Discutimos candidatos a eleições, mas não a captura de dados em nossos celulares ou o uso de produtos químicos no solo. Precisamos de um vocabulário político que nos permita compreender a natureza das disputas atuais e as orientações possíveis.
6. O segundo desafio da tecnopolítica contemporânea é responder à pergunta: como proceder? A ênfase no “como” requer novas ferramentas cognitivas, práticas ousadas e entramados inéditos. Pensar no “como” pressupõe que a tarefa fundamental decorra da concepção de uma organização atualizada. Organizações políticas que não se reduzam ao confronto interno pela resistência ao existente e que se constituam de forma intrinsecamente heterogênea. Modos de organização que ofereçam uma alternativa para um futuro mais justo no entramado dos estratos digitais e naturais. Como nos organizar é uma tarefa urgente, pois redefine não apenas os lugares onde a política é conduzida, mas também como as comunidades são constituídas. Os desafios que enfrentamos exigem uma matriz organizacional que funcione em múltiplos estratos, que seja composta por entidades heterogêneas, que abra mundos possíveis.
7. Em última análise, este manifesto é um chamado à configuração coletiva de uma gramática política que permita a articulação dos entramados entre humanos e não-humanos que definem o mundo atual. Para tanto, é necessário mostrar simultaneamente como na tecnologia e na natureza se dão múltiplas disputas e como abrigam possibilidades inéditas de invenção. O entrelaçamento irredutível de formas políticas, processos tecnológicos e estratos da Terra é um espaço de criação conjunta, extremamente versátil e ainda virtualmente inexplorado. Abrir caminhos mais justos para projetar esse entrelaçamento é a única política com sentido.
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