MODOS DE ESTAR PRESENTE: TEATRALIDADE, CONTRA-FEITIÇOS E TECNOLOGIAS PARA QUEBRAR A QUARTA PAREDE DA TELA

Cafira Zoé

agô. abro esse tempo-espaço tecido palavra a palavra saudando exu, o fio de tudo que existe na terra, a esfera. saúdo as mães d’água, sejam doces, sejam salgadas, a baía de todos os santos, que me olha de volta enquanto escrevo e o rio bixiga que vive comigo onde quer que eu vá, convocando suas águas. celebro os seres fantásticos, viventes, marítimos, aéreos, microscópicos que me acompanham, seja bicho, seja concha, seja peixe, seja mangue, seja gente, seja humano, e os que eu nem sei. saúdo o mistério e tudo o que gira, celebro o mercado e as boas trocas, as trocas justas, a poeira das estrelas e as nebulosas, as avós e os carcarás, os planetas antigos e os cometas… celebro eros e dionísio que têm sofrido grandes exílios, celebro o desejo, locomotiva mais que política da vida. saúdo a eletricidade e os curto-circuitos em sistemas supremacistas e de dominação, celebro os novos circuitos que vem vindo, fortes, com eletricidades novas… celebro a alegria na luta e a coragem, a capacidade de gargalhar na adversidade… saúdo iroko, o tempo, para quem sempre volto. 

“a humanidade é contra o envolvimento, é contra vivermos envolvidos com as árvores, com a terra, com as matas. desenvolvimento é sinônimo de desconectar, tirar do cosmos, quebrar a originalidade. o desenvolvimento surge em gênesis. relacionar-se de forma original, para o eurocristão, é pecado. eles tentam humanizar e tornar sintético tudo que é original.” (antônio bispo dos santos – a terra dá, a terra quer)

a quem é dado o direito de inventar mundos? quais origens de mundo conhecemos? que mitos constituem nosso inconsciente colonial? que outros mundos já existem entre nós? imaginar um mundo é desejo ou privilégio? a imaginação de tudo importa. sistemas políticos de dominação foram imaginados, desejados e ficcionados ao longo de séculos por modos de vida supremacistas e seguiram retroalimentados por eles. o que nós vivemos hoje com a ascensão das redes virtuais como veículos de produção do real é, talvez, um dos mecanismos mais refinados de atualização do app colonial e dos algoritmos que sustentam a colonialidade com afinco. os padrões de comunidade se estruturam como versículos bíblicos fundamentados em ficções de mundo binárias, de reconhecido lastro capital-especulativo, neoliberal, e enredadas até o pescoço em sistemas patriarcais, racistas, cisheteronormativos, extrativistas e predatórios. programados pelo recalque ontológico de um país que se estruturou em compulsórias narrativas de apagamento, os algoritmos que orquestram, no plano da virtualidade, a vida coletiva, são impulsionados por pautas de costumes, de grande fôlego moral e impactante atrofia ética. a moral opera pelo medo, é da ordem do supremacismo, arroga para si o direito de se sentir superior ao outro, ao fora de mim, ao que eu desconheço, na contramão de oswald de andrade, para os moralistas a máxima “só me interessa o que não é meu” se inverte. a moral está chafurdada na culpa. a ética é da ordem da ginga, precisa do instante agora, da relação, para que aconteça, mobiliza, é território no plano do pensamento e da ação, não tem cartilha e não é abstrata, pressupõe a contracenação e a diferença, está no plano da multiplicidade, conflui mais do que compete, a ética é o jogo de cintura, o equilíbrio da balança, o rasgo no egossistema. a moral condena, a ética convoca à auto-responsabilização no tecido comum, coletivo, de viver junto, sem susto. a ética talvez seja, portanto, o gesto de reencantar o mundo enquanto a moral preza pela sua domesticação. a moral está para o autoritarismo e está em alta nas comunidades virtuais em que nos reunimos com nossos perfis muito bem controlados. 

há alguns dias me encontrei com uma fala de conceição evaristo na mesma rede social que produz todos os dias, 24h por dia, 604.800 segundos na semana, uma quantidade infinita de lixo virtual. são páginas fantasmas criadas e abandonadas, perfis esquecidos, contas deletadas, senhas perdidas, contas hackeadas, milhares de flyers, anúncios, publis, postagens, mais publis, informações, amigos virando ventríloquos, deformações, golpes, fraudes, depoimentos pessoais, egolatrias, messianismos, idolatrias, criamos heróis, derrubamos heróis, criamos histerias, derrubamos lutas, pessoas e movimentos, lamentamos, fazemos de novo, lamentamos as guerras, passamos para próxima, zapeamos as pautas, escolhemos as nossas, jogamos fora, engajamos, fincamos bandeiras, pulamos fora do barco, criamos personas como se criássemos prisões, apontamos o alvo, somos o alvo…  enquanto a gente segue sendo “tão galera, tão legal” e decolonial.

nós produzimos uma quantidade gigantesca de lixo virtual na internet, com a ilusão gostosa de que estamos produzindo conteúdo. trabalhamos para a meta e suas co-parceiras 24h por dia, 31.556.926 segundos por ano e não recebemos nada por isso. somos arregimentadas pela geopolítica das big techs, dos donos da grana e seus identitarismos dominantes universais de grande monta — a árvore genealógica dos co-sanguinários no brasil é longa. as big techs operam em alta voltagem em um sistema predatório de intensa captura e descarte. 

assim como a mineração é máquina de destruição de ecossistemas geológicos e humanos, como o garimpo ilegal come florestas inteiras e expropria povos indígenas de seus territórios, como a especulação imobiliária é um modo caduco de fabricar cidades para devastação, servindo ao deus da grana, dos arranha-céus, do asfalto e do cimento, assim como o fundamentalismo político e religioso mastiga a força vital dos corpos e enfraquece a luta popular, coletiva… a exploração das subjetividades, da nossa vida, das nossas emoções, dos nossos pensamentos, da nossa força política e da nossa vontade, está acontecendo a céu aberto com evidentes adoecimentos no tecido social, psíquico, político, cultural, ambiental, econômico—  e mais bizarrices se acrescentam a essa lista. 

no meio de todo esse resíduo tóxico das redes sociais, salta, de repente, alguma espécie ainda viva, uma nova forma de vida, ainda livre da contaminação, capaz de nos devolver para dentro ao mesmo tempo em que nos conecta de novo, não à nossa humanidade, mas à nossa cosmogonia, nossa força vital, nossas cosmologias, nosso animismo, nossas ciências e tecnologias ancestrais de cooperação, simbiose, de fazer sinapse, fazer-circuitos, capazes de promover pequenos abalos sísmicos na ficção competição-ordem-progresso. foi então que conceição evaristo apareceu feito um cometa cruzando o céu da nossa longa jornada noite adentro e me lembrou que o fora é muita coisa, que existe vida além da tela, que ainda tem muito jogo, tem chão, os dados estão rolando, coisas estão acontecendo, o mistério tem sua força, contra-feitiços contra o massacre da vida estão sendo forjados em milhares de cantos, povos, gentes, movimentos, culturas, territórios… e que a presença é rito, tecnologia infalível que obsolescência programada nenhuma apaga.

“seduzir o outro, seduzir no sentido de que quando eu te encanto, nós ficamos no mesmo pé de igualdade… eu acho que a arte ela pode e precisa fazer isso” (conceição evaristo)

no teatro nós acessamos o mistério. não é sempre, nem em toda parte, e nem todo mundo, mas existem mundos, pequenas esferas, microcosmos, em que o teatro se forja como território, assentamento, encantamento e o poder da presença diante da presença do poder é, a um só tempo, tecnologia, feitiço, ferramenta, fundamento e linguagem. a contracenação é ferramenta forjada no fogo e na bigorna, é um presente que a teatralidade nos dá se estivermos atentas, para afiarmos o nosso maior instrumento de ataque à bomba macro-ego-política do nosso tempo: presença. milhares de outros ritos, de artes e de culturas, de povos em diversas partes do mundo, muito antes de nós e no aqui-agora, detém os saberes dessa matéria-viva e passam, transmitem, plantam e cultivam para que atravesse gerações.

como estar presente? como não sucumbir à 4ª parede do ecrã? como quebrar a tela? 

me aproximo das ideias de “reativação” e “retomada”, a partir do pensamento da filósofa da ciência isabelle stengers, para quem o capitalismo se configura como um sistema de feitiçaria sem feiticeiros, cabendo aos movimentos vitais de criação de vida, à poesia, à imaginação, às artes da presença, aos povos em luta ao redor do mundo… reativar suas feitiçarias. não há nada mais anti-teatral do que evitar o conflito, assim como não há nada mais anti-teatral do que evitar as confluências. estar presente requer o esbarro, é sem tela de proteção, é o salto em direção ao encontro, sem garantias.

são exercícios de abertura, como as nossas sístoles e diástoles, como expansão e contração, como o movimento dos barcos, é o movimento. não tem a ver com lacrar, é impossível estar presente fechando a fricção com um lacre. é também saber cortar, a hora de fazer circuito e a hora de meter um curto-circuito no sistema. é segurar a onda, é abaixar as armas e saber levantar quando o inimigo é inimigo, é muito importante saber quando é inimigo e não o contrário, é dar uma respirada, é ver que o inimigo gostou que eu confundi meu aliado com inimigo, é dar um rolê, dar um grito, um giro, uma gargalhada, é tomar um ar antes de correr para deixar meu check-in de opinião em todos os assunto dos mundo e em nenhum em especial, é cogitar que talvez eu não saiba nada sobre o que estou falando, cogitar, quem sabe, que eu esteja errada, saber perceber o inegociável quando ele aparece e agir sem confundir com o meu ego querendo me fazer de refém, é paquerar a dúvida… o ecossistema dos algoritmos nas redes sociais é forte e tem o seu canto de sereio, e chama, chama por nós, na força do ódio. e suga nossa capacidade de organizar a raiva, de metabolizar a raiva, de fazer fogo quando preciso com a nossa raiva.

ritualizar a presença não tem fórmula, não tem efeito de unanimidade, é da ordem da experiência, precisa ser experimentado, é da ordem da metamorfose, convoca o não enrijecimento, é da atmosfera da dúvida, do erro, do risco, do vão, e em nada talvez se pareça com o totalitarismo das certezas cimentadas. é prática de vitalidade. estar presente é sobre estar aberta, está mais ligado aos poros que aos dedos na tela. se parece com um estetoscópio, às vezes com um sismógrafo, noutras se transforma em concha, tem a forma do tempo, um caracol carregando um ouvido nas costas como casa. a presença é tabu e totem e muda de um para o outro e de novo muito rápido. a presença dá medo e atiça, a presença é da outra existência e da nossa, é para todo mundo. estar presente pode ser a coisa mais bonita que nós viemos fazer aqui. eu às vezes tenho o teatro pra isso. 

há caminho à beça, e só você pode saber do seu, sabendo que é sempre junto. presença para mim é bando, matilha, rua, festa de luta, o cachorro que vive comigo, é coro, multidão cantando junto, é carnaval, é o beijo na boca sem pressa, o gosto, a calma depois da trepada, poder escrever a palavra trepada, é a paixão pela minha namorada, a retomada das nossas palavras, lutas, bandeiras, é bandeira sem ser bandeirante, é bandeira tipo folha tremulando na copa mais alta da árvore, é a reativação do nosso charme e das nossas magias de fazer política na vida fora da canastrice fascista, é trincar os gêneros, é a emoção que chega depois de atravessar uma temporada inteira de teatro, é a alegria do último dia, do primeiro, dos dias em que dá tudo errado e o teatro assume a barricada e dá seu nome de rito, acontecendo, e a coisa parece que vai sozinha mas é junto com um monte de gente, entidade, é no invisível, é melhor que a encomenda, é chegar viva, é morrer em cena e nascer de novo, é meter o pé no patriarcado-racista-neoliberal, é poder relaxar, é ter alegria na luta, é saber que nascemos e morremos uns outros todos os dias – gente, seres, bichos, tudo — e que é sempre a mesma força de vida cruzando o tempo e as eras geológicas há milhares de anos. 

desejo que a gente domine a ciência de dar baile, de gingar, de esquivar e atacar o enfeitiçamento das big techs, telas, egos e ecrãs… antes que a rasteira seja grande mais. presença, ou nada!

SOBRE O AUTOR

rbantu
19 de dezembro de 2025