O MOVIMENTO É A GINGA

“Nós corremos o risco de perder, mas nós também corremos o risco de ganhar”

Publicamos aqui parte da conversa realizada com o mestre Antonio Bispo dos Santos em Setembro de 2023, na sede do coletivo Intervozes (São Paulo), três meses antes de Bispo nascer para a ancestralidade. Essa entrevista também compõe a primeira edição da revista física, editada junto da Sobinfluencia Edições. Participaram da conversa: Alana Moraes, Alfredo Portugal, Pedro Ekman, Salvador Schavelzon, Joana Barros e Cássio Brancaleone. Antônio Bispo dos Santos, também conhecido como Nego Bispo, foi um pensador quilombola, poeta, vinculado ao quilombo Saco-Curtume, município de São João do Piauí. Para nós, Nego Bispo tem sido uma referência incontornável para pensar formas políticas da autonomia vinculadas à luta pela terra e às experiências de liberdade possíveis contra o mundo do trabalho e da dominação colonial. 

Bispo, no seu último livro, A terra dá, a terra quer, você faz uma análise muito interessante sobre o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida gestado pelos governos do PT. Ele parece ser um bom exemplo de uma tecnologia colonial instaurada como política pública e expressa um certo modo de habitar a Terra. Fala mais um pouco sobre isso?

Uma das palavras mais complicadas que a gente fica pronunciando é desenvolvimento. Primeiro, ninguém explica o que é mesmo desenvolvimento. O que  é mesmo desenvolver? Assim, eu compreendo desenvolver como desconectar, como separar de, né? Bom, tem um pessoal da esquerda que ao invés de se preocupar com o que é dito, se preocupa com quem disse. Aí a pessoa disse assim: Quem é ele para falar de colonialismo? Ele estudou onde? Ele estudou o quê? Fui ver a trajetória dele, não estudou nada. Ora, eu não falo de colonialismo porque eu estudei, não. Eu falo porque eu enfrento. Eu faço é enfrentar o colonialismo todo dia. Eu falo de vida real, de papo reto. Então a esquerda precisa, pelo menos, ter menos preguiça de pensar quando quiser fazer as suas críticas. Quando digo que a direita e a esquerda são dois membros do mesmo corpo, do corpo colonialista, a esquerda deve me dizer por que não é. Porque eu vou dizer porque é. Eu vou dizer que é por causa dos seus consensos. São muitos os consensos entre esquerda e direita. A esquerda diz que a democracia resolve, a direita também diz. A esquerda diz que a educação resolve, a direita também diz. A esquerda diz que o SUS é maravilhoso, a direita também diz. Então, onde é que estão as contradições? Na minha compreensão, o que tá em debate é quem administra melhor o colonialismo, é quem é o melhor colonialista. Porque se você vai dirigir o mesmo trem colonialista, você vai pro mesmo lugar.

Então veja: a arquitetura. A arquitetura, na minha compreensão, não significa apenas construir prédio, é arquitetar tudo na vida. Arquitetar é como compor, é como fazer, é pensar, é o elaborar. Na arquitetura quilombola, o que que nós temos de muito necessário? Naquele tempo não tinha telefone, celular, principalmente, a distância entre uma casa e outra numa comunidade quilombola era a distância que você pode alcançar com um grito. Você gritar e o outro escutar, porque num pedido de socorro, esse é o meio de comunicação: o grito. Então você vai fazer a casa medida pelo alcance do seu grito. E os seus animais também: essa compreensão que eles podem ir até metade dessa distância e os animais do outro também até a mesma metade, mas todo mundo respeita os territórios. A territorialidade é também sonora, é também visual, é também do contato, tem toda uma territorialidade para você avançar na arquitetura. A arquitetura precisa ser territorializada. 

As casas quilombolas têm um terreno que cabe a sua casa no centro, mais a casa dos seus filhos do lado e a casa dos seus filhos do outro. Os netos vão para outra casa começar tudo de novo, mas a tendência é que os filhos que quiserem morar ali, possam morar. Ou então os que casam e querem ir pra casa do sogro também vão ter um terreno lá. Ou o contrário: tanto pode ir como pode vir. Isso tudo é pensado desde quando a criança nasce. Quando a gente nasce, os pais da gente já dizem: “Olha, comece a pensar onde é que vai ser sua casa, como é que vai ser sua casa, que madeira você quer fazer ou como é que você quer fazer. A gente vai pensando isso o tempo todo, tudo isso tem afeto, muito afeto. Tudo isso tem pertencimento, tudo isso tem paixão, tem subjetividade. 

O Minha Casa e Minha Vida constrói uma casa como você constrói uma gaiola, como você constrói um viveiro para os animais. Não pergunta se cabe quantas pessoas, em situações tais, porque na compreensão desse povo, a casa é apenas um lugar para dormir. A casa não é um lugar para festejar, até porque esse povo, na cabeça dele, as pessoas não precisam ter tempo de festejar. Elas têm que trabalhar de segunda a sábado e só parar apenas no domingo, mas não para descansar, é para lavar a roupa, para preparar para a semana de trabalho de novo. Então não tem descanso. Para esse povo não precisa mesmo de ter casa, não. Precisa ter jaula, precisa ter confinamento, não precisa ter festejo. Mas, no nosso caso, tem.

Quando a gente faz essa crítica, a esquerda fica chateada. Sim. Nem todo mundo tem clube para passar nos seus finais de semana. Nem todo mundo tem um espaço recreativo, o espaço recreativo muitas vezes deve ser em casa. Quando a gente vai fazer a casa, a gente pensa na distância da roça. A gente faz a casa numa distância que dê pra gente ir e voltar todos os dias ou até ir e voltar várias vezes. Às vezes a gente toma café em casa, vai pra roça, vem almoçar em casa, vai pra roça, vem jantar em casa. A vida na roça é cíclica, ou seja, na caatinga chove geralmente três ou quatro meses. Eu tenho quatro meses para me relacionar intensamente com a roça para no final ter uma boa colheita. Tive uma boa colheita no período que chovia, que é menos quente. Agora vou passar a parte que tá mais sol na sombra em casa, comendo aquilo que produzi na roça, indo no rio pescar, indo na mata procurar um animal, ou indo no campo bater uma bolinha para quem é de futebol, indo na casa do vizinho ou passeando, vindo a São Paulo visitar os amigos, os parentes ou indo para outros lugares. Então a gente tem uma relação cíclica com a vida e para você ter uma relação cíclica, você precisa começar a partir da sua casa.

Você disse que a esquerda e a direita são membros de um mesmo corpo colonial. Mas houve um momento em que a gente se distinguia da direita pelo enfrentamento ao capitalismo. Isso significava ter que construir a possibilidade de criar um outro mundo que não fosse baseado na exploração dos seres humanos sobre eles mesmos ou sobre a natureza. Eu queria pensar um pouco sobre isso com você. Como é que essa percepção de um enfrentamento muito radical contra aquilo que produz sofrimento nesse mundo colonialista, que é o capitalismo: como que a gente retoma essa dimensão do enfrentamento se livrando desse ranço colonialista? Isso que animava uma determinada tradição de luta sumiu? A esquerda virou, em certa medida, gestora do capital? Virou gestora dessa vida miserável, engaiolada, enjaulada? Como lidar com isso assim, como é que, qual é o jeito de lidar? Tem um jeito?

Olha, ninguém conhece um rio através da enchente. A enchente é passageira. Você viu a enchente no rio, você não viu o rio. Você só conhece o rio se você conhecer a nascente. A nascente é que dá a perenidade no rio. Ela é que dá a vazão do rio. Então, o rio é pela sua nascente, não pela sua enchente. Não dá para compreender a caminhada do povo sem compreender a nascente desta caminhada, de onde esse povo partiu. Quando atuei no movimento sindical e no movimento partidário, passei por situações muito delicadas. Primeiro, fui criado num ambiente de muitas relações harmoniosas, de muita alegria, de poesia e de festa. Eu não fui criado nesse separatismo da luta de classe, porque fui criado no quilombo. No quilombo não tem classe. Nós tínhamos 18 engenhos, 15 eram dos negros, só 3 dos não negros. Mas não é porque os negros compraram 15 engenhos, não. É porque fizeram os 18. Nós sabíamos fazer tudo que nós precisávamos fazer para viver. O nosso poder era o saber, o conhecimento não tinha a ver com o acúmulo de bens. Ninguém tinha poder porque acumulava bens. Nós tínhamos poder porque nós acumulávamos conhecimento. E nós acumulávamos conhecimento porque o saber não era a mercadoria. Então o saber é a única coisa que quanto mais você acumula, mais você compartilha. Por incrível que pareça, quanto mais você acumula saber, mais você quer dizer que sabe. Quanto mais você quer dizer que sabe, mais você compartilha seu saber, mais você distribui o saber. E na sociedade — ou humanidade, quando se diz sociedade também pode se dizer humanidade, é tudo a mesma coisa — o que vale é o acúmulo de bens materiais, seja do ponto de vista individual ou do ponto de vista coletivo. 

Então, qual é a diferença entre a direita e a esquerda? É que a direita diz que é melhor acumular individualmente e a esquerda diz que é melhor acumular coletivamente, mas ambas concordam com acumular. Ambas. A esquerda diz o contrário, mas pratica a mesma coisa. Pode procurar — e aí que se incomodem mesmo, porque tô falando de cadeira, tô falando que eu vivenciei —  visita as as estruturas sindicais nesse país e vai ver que dentro da estrutura sindical há uma verticalidade. Os diretores sindicais recebem uma gratificação desse tamanho e o zelador do sindicato recebe tal qual na fábrica capitalista. Por que não fazem diferente? Por que a CUT não montou uma empresa horizontal da forma que defende? Podia ter montado, perdeu pra Igreja Universal. A Igreja Universal montou banco, montou televisão, montou tudo que eles querem do jeito deles. A CUT não montou nada, nada. O tanto de dinheiro que circulou no movimento sindical na década de 90, eu tô dizendo porque eu vi, dava para ter montado uma televisão diferente, uma empresa diferente, um meio de transporte diferente. Dava para ter feito na prática, tipo pequenininho, uma unidade demonstrativa, dava para fazer. Não fez porque mantém a mesma hierarquia. O diretor sindical se veste parecido com o executivo da empresa, se reúnem também nos mesmos clubes. Sabe o que é isso? Um discurso e uma prática. 

Eu vivenciei isso e eu tive dificuldade na minha comunidade porque eu também fui dogmático, eu também discursava o mesmo que o partido me ensinava a discursar, o mesmo que o sindicato me ensinava a discursar. Briguei com a minha avó porque ela era contra a luta de classes. Porque ela sabia que ela não era classe. Ora, o tio Norberto não era patrão, nem era empregado, era dono da roça dele. Em que classe ele estava? E eu que nunca fui empregado nem patrão lá na roça?  A esquerda não foi capaz de ler a nossa realidade. Leu apenas a Europa. A esquerda passou a vida inteira lendo a Europa e não leu o que chamam de Brasil. 

Olha, eu vou falar dessa cena porque ela é necessária. A Coluna Prestes passou no nosso território. Aí, naturalmente que os fazendeiros, latifundiários, faziam a contrapropaganda. Eles alardeavam na região que a Coluna Prestes iria passar e quem tivesse gado, quem tivesse armazém de alimento, ia ser saqueado. Mandaram dizer pro meu bisavô, seu Manuel Máximo, que a Coluna Prestes ia saquear a casa dele. Olha, meu bisavô tinha três engenhos, mas ele tinha oito filhos casados, então eram oito famílias. Mandaram dizer pro meu bisavô que a Coluna Prestes ia saquear. O que meu bisavô fez? Catou as crianças, levou para dentro da mata, guardou, catou os mais velhinhos, guardou e chamou os outros e falou: manda vir a Coluna Prestes, manda vir saquear. Cadê que foram? Não foi não, porque como a gente diz lá na roça, formiga sabe o pau que corta. Foi não. Nós não tínhamos só a inteligência, nós tínhamos força física também para se garantir no nosso território. Um quilombola que sabe fazer engenho, sabe fazer carro de boi, sabe adestrar boi, por que que eu não vou ter um carro de boi? Então essas contradições precisam ser enfrentadas, mas dói na gente. Para mim, sair do partido e ter a posição que eu tenho hoje, não foi fácil, porque eu estava convencido de que Marx estava certo. Ora, Marx que nunca pisou aqui, como é que ele vai saber daqui? Entendeu? Quem estava certo era a mãe Joana, que foi quem me criou desde pequeno. Tem um capítulo no nosso livro que é chamado de Guerra das Denominações, porque para eu sair desse ambiente, eu precisei mudar também minha narrativa, meu repertório. Precisei trocar desenvolvimento por envolvimento, desenvolvimento sustentável por biointeração. Eu precisei trocar coincidência por confluência, mas também aliança por confluência. Precisei trocar saber científico por saber sintético e saber empírico por saber orgânico. Precisei trocar raiva por cosmofobia. 

E eu precisei ir para nascente da humanidade. Onde é a nascente da humanidade? Na Bíblia. A Bíblia é o estatuto da humanidade. A Bíblia é a constituição da humanidade. As escrituras, a linguagem escriturada é a linguagem da humanidade, portanto, é a linguagem colonialista. Porque o colonialismo é um comportamento humano. Só os humanos dão conta de ser colonialista na proporção que são. Outras vidas não  alcançam essa proporção. E aí, compreendendo que a Bíblia é o estatuto da humanidade e que a humanidade compõe o sistema colonialista, dá para compreender também que a Bíblia tem uma assembleia constituinte permanente no entorno dela. Só citar umas referências de constituinte da humanidade que dialoga com a Bíblia, por exemplo, que é muito citado, Maquiavel. A Bíblia diz como é que a humanidade deve se organizar. A Bíblia diz como é que a sociedade eurocristã monoteísta deve se organizar. Mas chega o momento que, como toda constituição, a Bíblia também tá meio desgastada, não tá dando conta. Precisa de umas emendas constitucionais, precisa de uma revisão, de uma reforma. Eu vou citar Maquiavel que é o mais conhecido. 

O que ele escreve? Eu não li Maquiavel, mas de tanto que eu ouvi o povo dizer. Maquiavel escreve dizendo que é possível administrar a humanidade ou através do amor ou através do medo ou através de ambos. É preciso você governar pelo medo, mas é possível você governar também pelo amor. Mas ele vai dizer que governar pelo amor é arriscado, porque pelo amor você pode ser traído. Pelo medo dificilmente você vai ser traído. Então Maquiavel orienta como governar a humanidade. É aqui que temos uma emenda constitucional. Tem todos os outros, o Freud, todos esses esses caras aí que escrevem na área da ciência humana, são reformistas da Bíblia, estão dialogando ali com a Bíblia. 

Marx vai dizer assim: “Olha, o sistema tá muito injusto, tá muito violento, parte da humanidade não vai suportar”. E ele pensa: “Como é que você pode amenizar o sofrimento, mas não resolver o sofrimento?” . Isso porque Marx também é a favor do trabalho. E o trabalho é castigo, tá lá em Gênesis. A Bíblia cria o trabalho como castigo e se Marx concorda com que o trabalho exista, está concordando com Jesus. 

Então é isso aí, voltando no seu questionamento, hoje muita gente tá se livrando das escrituras, das institucionalidades. Muita gente tá fazendo coisas diferenciadas. A gente pode encontrar, por exemplo, esse pessoal da Teia dos Povos. Eu posso dizer, sem sombra de dúvida, e aí não é personificando, mas é reconhecendo uma pessoa confluenciada que é o Joelson. Ele não é um gênio nem nada, mas é um cara que a gente precisa colar nele porque tem muita informação que chegou para ele, que não chegou para nós. Joelson até hoje, é uma das pessoas que eu conheço, é uma das poucas pessoas que eu conheço, que tem um argumento para peitar o agronegócio na sua essência. Porque o que é que diz a sociedade colonialista? É que o agronegócio gera lucro, que o agronegócio mantém o PIB. E o que diz o Joelson? O Joelson diz que se nós aproveitarmos apenas o que a Mata Atlântica nos oferece, só isso, nós podemos triplicar o PIB do Brasil. Que outro economista tem argumentos para peitar Joelson? Porque Joelson não tá dizendo isso porque leu Fulano de tal e Beltrano, não. Ele está dizendo isso porque eles pegaram 50.000 hectares de terra na Mata Atlântica, onde o cacau estava dando 20 toneladas por hectare. Pegaram vários jovens e mandaram fazer um curso de produção de chocolate. Depois conversaram com os povos indígenas, com os pais, com os pais e a mãe de santo, que conversaram com a terra. E aí, quem quiser acreditar, acredite. Quem não quiser, que continue lá com seus dogmas. Mas eles perguntaram à terra, por que que o cacau não está produzindo o que precisa produzir? O que que a terra disse? Porque estou desalimentada. E se eu não estou alimentada, eu não consigo alimentar o cacaueiro. O que que o povo fez? Alimentaram a terra. E qual é o resultado? Hoje eles estão colhendo 90 toneladas por hectare. 

Mãe Joana não conhecia Joelson. Mãe Joana não conhecia Cacique Babau. Mãe Joana não conheceu Jera Guarani, mas conheceu porque era integrada a esse povo cosmologicamente. Então, quando Mãe Joana dizia a terra dá, a terra quer, o que ela estava dizendo? Alimente a terra. Hoje nós não precisamos de dados de quem morreu e de quem tá vivo, não. Nós precisamos é alimentar a nossa trajetória. E trajetória se alimenta contando história bonita, história boa que alimenta a vida. Então é isso, o que tá acontecendo com Mestre Cobra Mansa lá no Kilombo Tenondé; o povo lá da Ilha de Maré com educação escolar quilombola. Então tem tanta coisa boa acontecendo que eu não tenho tempo de falar de coisa ruim. Não é nem porque eu não quero, não dá tempo. Na hora que eu ia falar de uma coisa ruim, me aparece duas boas. Então eu prefiro duas boas do que uma ruim.

Agora existe um maior interesse da sociedade dos brancos pelas vozes  quilombolas e indígenas. Às vezes isso pode se tornar uma aliança, mas a gente vê também como existe um risco do que você falou antes, do pensamento poder virar também uma mercadoria. Como você se posiciona nesses novos movimentos de captura que podem transformar o conhecimento da terra em outra coisa, algo que circula como qualquer outra mercadoria?

Nós temos esse amparo ancestral, temos essa coisa da ginga, de nós sabermos aonde é que nós entramos. Nós sempre estamos um pé dentro e um pé fora. A gente nunca bota os dois pés pra dentro. Tanto é que tá nas nossas cantigas. Nos sambas tem isso. Pisei dentro, pisei fora, peguei menina, fui embora. Na capoeira tem ou sim, sim, sim ou não, não, não. A gente sempre tá um pé dentro, um fora. A gente sempre faz que vai, mas não vai. A gente sempre faz que é, mas não é. Isso é da nossa cosmologia. Não                                       é uma invenção nossa. Isso vem da relação com a natureza. A gente aprende isso com as cobras, com os ratos. A gente aprende isso com os macacos, com os sapos. A gente aprende isso sempre vendo no pequeno enganar o grande. Tanto é que nas nossas histórias, ao redor da fogueira, o macaco sempre ganha da onça.  As nossas histórias que contamos para as nossas crianças, o mais fraco sempre ganha do mais forte, que é pra gente achar que tem jeito. Mas tem alguns de nós que já passaram. O que tem de preto em Alphaville pensando que é classe média, meu irmão, é uma quantidade enorme. Mas tem gente nossa que atravessou de lá para cá.

Por exemplo, um empreendimento manda uma consultoria para negociar a mitigação no território e aí manda uma pessoa de pele amarelada, uma pessoa mais europeizada para negociar. Aí a gente pega a pessoa logo, a gente pode perder a negociação, mas nós vamos dar uma taca nesse menino que ele vai sair aqui arrependido de ter vindo. Nós podemos perder, mas ele apanha. Aí a empresa viu: opa, tira o menino e bota uma negra. Chegou a mulher. E aí  nós olhamos assim: e agora como é que nós vamos fazer?

Vocês me dão licença, eu bebi uma cachaça com essa moça: “Vem, moça, você bebe cachaça?” Ela disse: bebo. Fomos pra praça, arrochamos na cachaça e conversamos sobre nossas vidas. No final da cachaça eu perguntei: “Topa ir no terreiro sexta-feira comigo?” Ela disse: “Topo”. Aí, sexta-feira fomos no terreiro. Chegamos no terreiro, rufaram-se os tambores, ela entrou na gira. Quando ela entrou na gira, pensei, tem rumo. Saímos, continuamos bebendo e fomos conversando e fomos negociando. Aí deu tudo certo. Nós falamos pra ela: “Nós não queremos que você engane o seu povo. Mas nós não vamos enganar o nosso.”

Hoje ela já foi tirar duas férias lá com a gente, já comprou uma roça lá na região e toda vida que eu venho aqui em São Paulo, ela cuida de mim que é uma maravilha. Hoje de noite vai me encontrar e virou filha. Então isso também é a nossa capacidade de trazer: nós corremos o risco de perder, mas nós também corremos o risco de ganhar. 

Bispo, o que você tem pensado sobre tecnologia?

Do lado da comunicação, você pode inventar o que você quiser. Tem uma coisa chamada palavra. Pode botar digitalidade, não sei o quê. A palavra sempre vai predominar, sempre. Porque a escritura sem a palavra não funciona pra todo mundo. Tanto é que os pastores vendem a Bíblia, mas lêem para quem comprou. Os padres vendem a Bíblia, mas lêem para quem comprou. Mesmo quem comprou sabendo ler, porque o segredo está na palavra. De todos os grandes meios de comunicação, qual é o que nunca cai de moda? O rádio. Você pode inventar o que você quiser. O rádio é o rádio. O microfone da plenária assusta, mas o microfone do rádio atrai. As pessoas estão aqui no seu terreiro conversando com você. Nós estamos mais do que nunca no momento da palavra. Por quê? Exatamente porque a escritura está toda sendo digitalizada, mas a palavra não é digitalizada. Você digitaliza a leitura, mas você não digitaliza a palavra porque cada palavra, a mesma palavra que eu falo aqui, daqui a pouco eu falo com outra sonoridade, com outro volume ou com outro timbre, mas a mesma palavra, se eu falar ela 100 vezes ao dia, ela é sempre uma palavra nova, não dá para digitalizar. Agora a escrita dá para digitalizar, a escrita ela guarda, a palavra, não. 

A rádio comunitária, quando era clandestina, tava em todo lugar. Depois legalizou, acabou. Então a esquerda fez uma campanha para legalizar a rádio comunitária. Devia ter feito uma campanha para comprar a Record, mas esqueceu de comprar a Record e foi regularizar a rádio comunitária. 

O que você gostaria de dizer para as gerações mais jovens?

Vai ter um momento que o Nego Bispo precisa sair de cena para que outras pessoas apareçam em cena, porque de repente eu estou já interrompendo a caminhada de outras pessoas. De repente, quando para tudo começar a chamar Nego Bispo, deixa de chamar outras pessoas que podem contribuir resolutivamente, muito diferente de Nego Bispo. Às vezes, Nego Bispo tá sendo muito repetitivo e as necessidades não  estão sendo nem narradas, muito menos operacionalizadas do ponto de vista resolutivo. É como se você tivesse uma árvore muito velha. Uma árvore muito velha bota menos frutos e os frutos são menores e a capacidade de germinação das suas sementes também são menores. Então, nesse momento, essa árvore precisa perder alguns galhos. Ou perder todos os galhos para que ela não faça mais sombra para que a sombra não interrompa mais a germinação de outras plantas. É preciso que a gente lide com a vida como começo, meio e começo e não como começo, meio e fim.

Alana Moraes é professora de antropologia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Integra o Grupo de Trabalho Tecnopolíticas e Democracia no Antropoceno vinculado ao Instituto de Estudos Avançados e Convergentes da UNIFESP. Membro da rede LAVITS (rede latino-americana de estudos sobre vigilância, tecnologia e sociedade); do Pimentalab-UNIFESP e do grupo Guerra de Mundos-UNIFESP onde desenvolve ações de pesquisa e de extensão sobre tecnologias, lutas sociais, antropoceno, gênero e colonialismo.

Cássio Brancaleone é Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Professor e pesquisador na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Co-autor de Alebrijes Anárquicos. Anarquismo, praxis anticolonial y autonomía en América Latina (Bajo Tierra/Eleutério/UFFS, 2024)

Alfredo Portugal é Educador e Comunicador Popular;  Jornalista, Professor;  compõe o Movimento dos Pequenos Agricultores, MPA; o coletivo Intervozes; foi editor e coordenador do Brasil de Fato na Bahia; mestre em Educação do Campo pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, UFRB; doutorando em Educação pela Universidade Federal da Bahia, UFBA

Joana Barros é professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); compõe a coordenação do Centro de Memória Urbana (CMUrb, desde 2019) e do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF, 2025-2026). É pesquisadora do Disturbio  (Uerj) e do Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASInTec/Unifesp), onde é vice-coordenadora. É membro da Associação Brasileira de História Oral e compõe o GT Memória da ABHO.

Pedro Ekman  é arquiteto formado pela USP, Coordenador Executivo do Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social e diretor na Molotov Filmes, escreveu e dirigiu o longa documentário FREENET e o curta NHANDEFLIX

Salvador Schavelzon é antropólogo, professor e pesquisador da UNIFESP, também vinculado ao PROLAM-USP. Pesquisa processos constituintes e Cosmopolítica indígena no Chile, Peru e Bolívia.

SOBRE O AUTOR

rbantu
19 de dezembro de 2025