POR UM COMUNISMO DA ATENÇÃO

Entre o íntimo e o coletivo, entre o social e o político, entre o psíquico e o ecológico, surge hoje a linha transversal da atenção. A atenção como prática e como demanda, como um novo bem comum.

Em memória das minhas tias Clara e Conchi, o amor e a atenção

como modo de vida, sempre as amarei.

Existe alguma conexão entre crises de pânico ou ansiedade (essa epidemia do presente) e mobilizações ecologistas pela sublevação da Terra? Os problemas nas escolas e as lutas dos profissionais de saúde em toda a Espanha têm algo em comum? Nos aventuremos um pouco.

Primeiro, a sensação de transbordamento como um mal-estar dos tempos. Corpos que se agitam, com dificuldade para respirar e sensação de que estão morrendo. Locais de trabalho cotidianos privados de tempo e recursos para lidar com a multiplicação de demandas. Atravessamentos dos limites físicos e biológicos da Terra. Em suma, o transbordamento de corpos e tempo, de centros de saúde e escolas, do próprio planeta.

Segundo, a atenção como chave para as lutas coletivas. Profissionais de saúde lutam por ambientes de trabalho adequados para que possam ouvir cada paciente e evitar ter que despachá-los rapidamente. Movimentos ecologistas apontam o que os de cima não querem ver: os danos causados ​​pela emergência climática e a necessidade de uma mudança radical de paradigma. Movimentos feministas colocam o cuidado com a vida no centro das ações e da agenda política.

De um lado, a exploração de todos os recursos até a exaustão: psíquicos, sociais e naturais. De outro, a renovação e o cuidado das energias vitais por meio de movimentos que estabelecem uma relação diferente com o mundo. Não há distinção entre “natureza interna” e “natureza externa”. O colapso é simultaneamente psíquico, social e ecológico. Assim também deve ser a mudança e a transformação.

A capacidade humana de atenção, no seu duplo sentido de cuidado de si e do outro, surge como o elemento transversal que conecta as mazelas da época e as lutas contemporâneas.

A atenção como experiência plena do presente, diante do transbordamento (culpado) de uma vida que se repete mil vezes ao longo do dia: “Não consigo”, “Não aguento mais”, “Não dou mais conta”.

A atenção como faculdade de escuta profunda do mundo e de cada um de seus habitantes, sejam formas de vida humanas ou não humanas, em oposição ao extrativismo, que vê o ambiente físico como um posto de gasolina gigante onde é possível abastecer à vontade.

A atenção como questão sobre o sofrimento do outro como base das relações éticas e políticas, diante da conexão instrumental com tudo o que é dominante hoje.

São esses os sentidos que o livro coletivo que coordenei com Oier Etxebarria tenta pensar em conjunto e que acaba de ser publicado sob o título O eclipse da atenção.

Qual é o seu tormento?

O que é atenção? A pensadora francesa Simone Weil, que fez dessa questão o cerne de sua filosofia, responde: atenção é a capacidade de esperar. Uma espera não resignada, mas ativa, intensa, alerta.

Simone Weil distingue entre atenção e concentração: atenção não é um esforço laborioso de vontade, mas um estado de abertura e disponibilidade. Ao mundo, aos outros e à situação em que vivemos. Não exige tanto trabalho ou disciplina dolorosa quanto uma relação com o desejo e a alegria. Se há desejo, há atenção; prestamos atenção ao que desejamos. Não se trata tanto de “focar” ou “centralizar”, mas de se esvaziar de preconceitos para poder abraçar algo desconhecido e imprevisto.

É a qualidade, para Simone Weil, de todo aprendizado e de todos os relacionamentos não instrumentais com os outros.

A única coisa que deve ser ensinada na escola, Weil recomenda provocativamente, é precisamente prestar atenção. Um exercício de lógica ou filosofia, matemática ou literatura são simplesmente maneiras diferentes de exercitar a capacidade de atenção. Primeiro, resista a todas as tentações de “querer saber rápido demais”: julgamentos imediatos, tomada de posição automática, uso de rótulos e estereótipos para se orientar. Em seguida, desenvolva um ponto de vista singular e pessoal sobre o que nos é apresentado ou que nos afeta.

A faculdade da atenção, como passividade ou espera ativa, nos desafia a experimentar uma temporalidade não imediatista: não nos apressar ou nos precipitar, não nos enchermos prematuramente, não termos uma opinião sobre tudo o que acontece ou sabermos sempre de antemão qual é a opção correta, mas sim sustentar o tempo de elaboração da própria verdade. Um tempo de processo, aquele “tempo de ver, compreender e decidir” de que também falou o psicanalista Jacques Lacan.

O segundo significado de atenção para Weil é atenção ao outro. Atenção como base sensível da relação com o outro. Em que sentido?

Weil explica por meio da parábola do samaritano: a questão fundamental na relação de cuidado com o outro é a pergunta “qual é o seu tormento?” Isso é, não assumir, falar ou pensar pelo outro, considerá-lo de acordo com sua aparência ou origem, mas sempre perguntar e ouvir. Atentar para sua diferença, sua singularidade, seu caráter como sujeito.

O cuidado é sempre singular e mutável. Exige da nossa parte questionamento e diálogo constantes com o outro. Caso contrário, também pode ser opressivo, alienante e sufocante: ser cuidado como um objeto, uma unidade em uma série, parte de um rebanho. O que costumamos chamar de mal amar.

O domínio do automático

No atual colapso da atenção, entendida como a capacidade singular de esperar e ouvir os outros, quem ou o que se responsabiliza no mundo por nós? Os automatismos. Todos os tipos de padrões, protocolos e algoritmos organizam a vida individual e coletiva hoje. O automatismo não espera: sabe com antecedência. O automatismo não escuta: pressupõe e calcula. O problema atual não é que estejamos muito distraídos, mas a delegação massiva da nossa atenção a mecanismos que veem, compreendem e decidem por nós.

O automatismo, dizem, “é mais eficaz”. Mas é eficaz para quê? A eficácia dos automatismos é a eficácia das coisas: a que trata o mundo como um conjunto de coisas calculáveis ​​e controláveis. Eficácia do desempenho e do curto prazo. Eficácia do resultado, não do processo. Eficácia que nos considera como objetos, mas nunca como sujeitos. Uma eficácia “extrativista”, explica Yves Citton no livro, orientada para o benefício final, mas que negligencia o pano de fundo ou a trama da vida, essa trama invisível e inquantificável que torna a existência possível.

Automatismos organizam o que virá com base no que já foi, de acordo com uma ciência estatística baseada em correlações. Os algoritmos de mercado nos oferecem esta ou aquela mercadoria com base no que consumimos antes. Os protocolos institucionais nos alertam sobre este ou aquele problema caso se assemelhe a problemas que já existiram. Automatismos sempre nos prendem a um ciclo do mesmo, enquanto a atenção é a capacidade de esperar e acolher o novo.

Automatismos são, na melhor das hipóteses, simplesmente “conhecimento cristalizado”. Mas o mundo é feito de situações singulares em constante movimento: a vida também consiste no não-calculável, no não-previsível, no não-controlável. Delegar a automatismos nos torna incapazes de sentir e captar essas mudanças, muitas vezes quase imperceptíveis, por nós mesmos. Pensamos, por exemplo, que este ou aquele protocolo institucional contra o bullying será suficiente para nos manter alertas e deixamos de nos esforçar para ouvir diretamente as crianças em situações presenciais.

Comunizar a atenção

A vitória da lógica do lucro sobre qualquer outro valor social causa o transbordamento em que vivemos. Vidas individuais, centros de atenção primária, escolas e o próprio planeta são explorados, precários e “não dão conta”. Os automatismos aparecem como o único mecanismo capaz de atender às demandas contemporâneas por imediatismo e eficiência. Transbordamento, crise do cuidado e automatismos como única resposta: é um ciclo vicioso catastrófico. Como escapar?

Entre o íntimo e o coletivo, entre o social e o político, entre o psíquico e o ecológico, surge hoje a linha transversal da atenção. A atenção como prática e como demanda, como um novo bem comum. O que imaginamos por comunismo da atenção? Não um regime ou uma instituição, mas práticas de comunização da atenção. De exercício e proteção da atenção.

A atenção é um problema material, não apenas privado ou psicológico. Requer tempo, recursos e contextos institucionais adequados. Um médico ou professor, que queira fazer bem o seu trabalho, depende não apenas do seu próprio esforço ou boa vontade, mas de uma série de condições coletivas. Há ambientes que favorecem a atenção e outros que dificultam. Não é apenas um problema pessoal, mas coletivo e político. O comunismo da atenção disputa tempo, recursos e o controle dos contextos onde o nossa atenção é exercida: postos de saúde precários, ruas invadidas por publicidade, a abolição generalizada do silêncio etc.

Mas a atenção não é apenas uma demanda ou um objetivo; é algo que se pratica e se compartilha. A defesa da atenção exige novas formas de militância e compromisso. Diante de um ativismo ansioso e bulímico, orientado pelo imediatismo e pelos resultados, também assolado por automatismos, trata-se de ativar e sustentar outros tempos e outros processos, militantes capazes de trabalhar sobre si mesmos, coletivos que não competem pelo narcisismo das pequenas diferenças, mas cuidam do ecossistema que sustenta o bem comum (espaços, informação, climas afetivos).
A terapia individual fica insuficiente sem a preocupação com o mundo comum. A luta coletiva não vai muito longe sem abordar a dimensão pessoal e subjetiva. A atenção é a interface entre o sistema nervoso e a crosta terrestre. A arte de nos mover em reciprocidade, em relação, no entre que sustenta o mundo.

SOBRE O AUTOR

rbantu
19 de dezembro de 2025